As “meninas” vão aos pés do Senhor do Bomfim

Postado em Sexta, 22 Setembro 2017 19:52
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A devoção do povo desta região e de várias partes do Brasil ao Senhor do Bonfim, vem desde a primeira metade do século XVIII. Segundo farta documentação de posse de autoridades católicas, um agricultor encontrou a imagem do Santo Milagreiro apoiada no tronco de uma árvore. Ele imediatamente a levou para Natividade, onde a coletividade local passou a reverenciar o feito, o que durou pouco tempo, já que sem nenhuma explicação plausível, a imagem voltava para o local onde fora encontrada. Depois de inúmeras idas e vindas a comunidade nativitana resolveu construir uma pequena igreja naquelas terras desabitadas que, em pouco tempo, foi transformada em local de expressiva peregrinação.

 

Por Edivaldo Rodrigues

 

Da lá para cá, séculos se passaram, e o Santo Milagreiro continua como fonte de fé e esperanças de milhões de pessoas, que todos os anos, de 10 a 18 de agosto, cumprem um ritual sagrado, à pé ou usando os mais diversos tipos de transportes, se deslocam de suas cidades, vilas, distritos e povoados para, diante daquela pequena imagem de barro, agradecer as graças recebidas, como também renovar na alma e no coração a fé e a devoção nele, Senhor do Bonfim, que é reverenciado por todo o povo tocantinense.

No principiar de tudo, aquela singela e acanhada igrejinha, fincada no centro de um cipozal, recebia centenas de fiéis, que sofriam com a falta de estrutura e de alguns itens básicos de sobrevivência, como água e alimentação. Esta dura realidade somente começou a melhorar com a interferência dos frades dominicanos, religiosos que chegaram a Porto Nacional em outubro de 1886, oriundos do Mosteiro de São Maximin, localizado no Norte da França, onde desde o século XI, jovens de várias partes do Continente Europeu, recebiam ali os ensinamentos de São Domingos, conhecimentos que eles implantaram nestas esquecidas terras do Norte Goiano.

Com a interferência e comprometimento dos frades dominicanos, que também construíra, entre 1893 e 1904, a Catedral de Nossa Senhora das Mercês em solo portuense, o povoado do Senhor do Bonfim ganhou mais importância. Com a criação da Diocese de Porto Nacional pelo Papa Bento XV, no dia 20 de dezembro de 1915, por meio da Bula PapalApostolatusOfficium, os religiosos franceses adquiriram maisvisibilidade, força e liberdade de ação. Assim posto, a Romaria de Nosso Senhor do Bonfim passou a receber atenção especial, tanto do Clero, quanto das autoridades constituídas.

Por ser a Diocese de Porto Nacional um organismo de abrangência geográfica significativa, já que passou a congregar 31 municípios, perfazendo um total de 17 Paróquias, todas suas ações repercutiam com visibilidade, posto que estes números registravam uma expressiva ramificação católica em toda esta região. Esta força levou o Clero propiciar à romaria algumas melhorias estruturais voltadas para atender os milhares de fiéis na busca de renovadas esperanças de vida.

Estes fiéis que a cada ano aumentava em número, crença e devoção, tinham visível e palpável necessidade de consumir o que era oferecido pelo profano. Daí a necessidade de um olhar mais condescendente por parte de religiosos e autoridades constituídas, que não impuseram nenhuma barreira contra a implantação, no período das celebrações, de uma respeitada rede mercantilista em torno do Santuário de Nosso Senhor do Bonfim.

Não diferente dos grandes santuários espalhados por todo o mundo, na Romaria do Senhor do Bomfim, o sagrado, de uns tempos para cá, passou a conviver abraçado com o profano. De 10 a 18 de agosto, todos os anos, congregações católicas, religiosos de todas as graduações e vertentes, lideranças políticas e devotos, se unem na fé, e assistem missas campais, participam de terços, de ladainhas e benditos e de rezas diversas, tudo isso cronometradamente.

Esta multidão de devotos em seguida lota as lojinhas, próximas à igreja do Santo Padroeiro, para comprar indulgencias e lembranças temáticas. As barracas, montadas por toda a área da romaria, formando ruas e ruelas, fervilham de romeiros, que ano após ano, faz aquecer o comércio de utensílios domésticos, brinquedos, ferramentas de trabalho, roupas, calçados, comida, e muita bebida alcoólica.

Durante a noite, as luzes ferem de brilho a escuridão, iluminando aquela pequena cidadela da fé, momento em que o sagrado cede lugar ao profano, permitindo que as casas de shows, as bancas de jogos de azar, os parques temáticos, os bares e boates, fazem a junção explosiva com muita bebida e sexo, reafirmando assim a máxima de que, depois da devoção vem a diversão.

Essa fase profana da Romaria do Senhor do Bomfim começou a ganhar corpo no distante ano de 1968. Antes disso, poucos comerciantes das cidades pertencentes à Diocese portuense, se arriscavam a instalar ali seus empreendimentos, já que os romeiros de então focavam somente a fé no Santo Padroeiro. Naquele período, aqueles homens e mulheres com a alma impregnada de esperanças chegavam, rezavam, pagavam suas penitências, renovavam seus pedidos e em seguida partiam de volta para suas cidades, vilas e povoados.
Foi por isso que no dia da missa principal, 15 de agosto, muitos se surpreenderam com a chegada, ao raiar do dia, de um caminhão lotado com as “meninas” do Cabaré de Dionízia, o mais famoso de Porto Nacional e região. Ela, que não era prostituta e sim, ao lado do marido Piguinato e dos filhos, Jurinha e Ligação, a administradora do seu prostíbulo, avisou raivosa aos curiosos que nenhuma das suas “protegidas” estava ali a trabalho.

Após aquela visita de devoção e fé das “meninas” do Cabaré de Dionízia ao Santuário do Nosso Senhor do Bonfim, os poderosos se movimentaram. Conhecedores das qualidades dos serviços prestados por aquelas jovens “mulheres de vida difícil”, que usavam seus corpos para promover os prazeres da alma e da carne, um número expressivo de políticos, empresários e fazendeiros, que eram colaboradores e dizimistas com gordas quantias para o Clero, reivindicaram e conseguiram a anuência silenciosa dos dominicanos e, no ano seguinte, três caminhões lotados de “quengas”, chegaram uma semana antes do inicio oficial das festividades do Santo Milagreiro.

Depois da festejada e esperada chegada daquele grupo de prostitutas, muitos homens se juntaram para ajudar na armação, por entre cipós, mato ralo eárvores retorcidas, de simbólicos ninhos de amor. Lonas coloridas, tecidos esvoaçantes e camas de campanha, deram forma às pequenas e breves moradias das prostitutas, que durantes todas as noites daquele período da festa religiosa, fervilhavam de clientes, que faziam com que o nascente comércio da localidade também fosse contaminado pela animação de centenas de homens endinheirados e sedentos de sexo.

Esta relação harmoniosa entre o sagrado e o profano na Romaria do Senhor do Bonfim, envolvendo o Clero e as “meninas” do Cabaré de Dionízia, durou por anos incontáveis, até que o processo da evolução das sociedades, após profundas transformações nas relações humanas, culminou com a revolução sexual. Isso afetou drasticamente a remuneração da mais antiga profissão do mundo, que perdeu espaço para as belas garotas de programa, para as acompanhantes executivas e principalmente para um sem número de adolescentes, que livres para voar, se jogam nas baladas, nas bebedeiras homéricas, e nos braços de quem lhes garanta estes prazeres da vida moderna, que são recompensados, sempre com muito sexo.

Foi por esta mudança radical na vida sexual das pessoas que as “meninas” do Cabaré de Dionízia deixaram de trabalhar na Romaria do Senhor do Bonfim, mas todos os anos, enquanto forças tiveram, voltavam como devotas aos pés do Santo Milagreiro. Ali, diante daquele formigueiro humano, elas penitenciavam por seus pecados, ao mesmo tempo em que aliviavam suas almas com a certeza de que, foram elas as primeiras que empreenderam na localidade, possibilitando assim sua consolidação comercial e a conveniente e equilibrada convivência entre os seguidores do sagrado e do profano. Certamente é reforçando a nova realidade nas relações humanas que esta romaria ainda vai durar por incontáveis séculos.

Esta é a tese defendida pelo então prefeito de Natividade, que ao observar aquelas antigas prostitutas rezando no altar do Santuário, segredou no ouvido do Bispo Diocesano, dizendo: “Essas mulheres, de vida difícil, tem que ter a permissão do Altíssimo para quando partirem, morar ao Seu lado, pois foram elas as responsáveis por misturar reza, cachaça, dinheiro e putaria, e assim neste lugar passou a se juntar um mar de gente que, ano a ano, revela ao Santo Milagreiro seus pecados inconfessáveis, o que fez crescer a Romaria Senhor do Bonfim, onde tudo pode, inclusive rezar”, o religioso ouviu aquele profético comentário em silêncio e em silêncio permaneceu, dando um claro sinal de que, se ele se calou, foi por que consentiu.