CONSELHEIRO DE BOLSONARO: “NOS PREOCUPAMOS EM RETOMAR A ECONOMIA E, SE POSSÍVEL, GERAR EMPREGO”

Postado em Quarta, 31 Outubro 2018 06:54
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Cientista político Antônio Flávio Testa atua em um grupo de técnicos que elabora projetos para candidatura do PSL Cientista político Antônio Flávio Testa atua em um grupo de técnicos que elabora projetos para candidatura do PSL Foto: REPRODUÇÃO TV BRASIL

Cientista político Antônio Flávio Testa foi voluntário na campanha do militar. Ele atua em um grupo de técnicos que elaborou projetos para candidatura do PSL

 

O cientista político Antônio Flávio Testa, cunhado e amigo do ex-presidente da Conorte e empresário tocantinense na área de Publicidade e da Comunicação, em Brasília, José Carlos leitão, é uma das “cabeças pensantes” do grupo que elaborou o Plano de Governo de Jair Bolsonaro, presidente eleito no último domingo.

Antônio Flávio já apoiou bandeiras diferentes. Foi aliado de Fernando Collor (PTC), quando o alagoano foi presidente. Colaborou com gestões antagônicas no Governo do Distrito Federal, como de Cristovam Buarque (ex-PT, hoje no PPS), Joaquim Roriz (PMN) e José Roberto Arruda (PR). Já votou em Luiz Inácio Lula da Silva (PT) para presidente. E agora, depois de quase 50 anos de profissão, decidiu seguir Jair Bolsonaro (PSL). Convidado para colaborar com o programa de governo do presidenciável de extrema direita, Testa é um dos elos do político militar reformado com o meio acadêmico. Coordena um grupo que reúne cerca de 40 técnicos e é subordinado a uma tríade de generais do Exército.

Servidor aposentado do Senado e professor da Fundação Getúlio Vargas, ele acredita que o capitão reformado Jair Bolsonaro e seu vice, o general Hamilton Mourão (PRTB), são compromissados com a democracia, diz que muitas vezes são mal interpretados pela imprensa e que é necessário esquecer o passado para o país avançar. Afirma ainda que se tornou apoiador voluntário de Bolsonaro por compartilhar das ideias dele. “O que foi feito no Brasil nos últimos 20 anos foi um desmando enorme. Era uma utopia que podia ter dado certo, mas ela descambou para o clientelismo, para o toma lá, dá cá, para a corrupção”.

A entrevista concedida ao EL PAÍS ocorreu na semana passada, no Kifilé, um tradicional restaurante na Asa Norte da capital federal, conhecido por receber a velha guarda da Universidade de Brasília (UnB).

Pergunta. Você acha que Bolsonaro e Mourão têm compromisso com a democracia?

Resposta. Sim. Total. Pela primeira vez na história do Brasil você vê um deputado de sete mandatos disputar legitimamente uma eleição, ao lado de um cara que nunca esteve na política e estão em vias de se elegerem presidente e vice. Com Bolsonaro, não vejo a menor possibilidade de que haverá um caos, de que a polarização estragará o país. Do ponto de vista da democracia, os militares têm o estrito dever de cumprir a Constituição. Isso está na alma deles. Tanto que aceitaram a intervenção no Rio de Janeiro. Se houvesse uma rebeldia, eles não aceitariam porque a sua função precípua é outra.

P. E essa história de autogolpe? Não há essa ameaça?

O Lula fala assim, cadê as mulheres do grelo duro? O Lula pode falar.

R. Impossível. São 513 deputados, 81 senadores, 21 governadores...

P. Mas em 1964, quando houve o golpe militar, também havia um Congresso Nacional em pleno funcionamento.

R. Tinha. Mas, nesse ponto o Bolsonaro está certo, foi feita uma eleição para escolher o presidente. O Congresso declarou vazio o cargo de presidente da República e, pela Constituição, você não pode ficar sem comando, e os militares chegaram. Claro que foi tudo planejado, foi tudo articulado. Mas foram os políticos que fizeram isso. Em acordo com os militares.

P. Você nega, assim como o Bolsonaro, que tenha havido uma ditadura militar?

R. Foi uma ditadura, claro. Mas foi um contragolpe. Depois que você cria o senador biônico, governador biônico é o acordo com a oligarquia. Naquela época era o jogo do poder. Só que, depois que você senta na cadeira, você não sai. Agora, não vejo essa possibilidade. Todos estão respeitando o que está previsto hoje, disputando legitimamente com base nas regras que a Constituição estabeleceu.

P. O que se faz para acabar com essa sombra de que o país corre o risco de enfrentar uma nova ditadura?

R. Tem de deixar outras pessoas falarem. Não pode ser só a visão da [jornalista da Globo News] Miriam Leitão.

P. Como assim?

R. O pessoal constrói um discurso que é equivocado. A Rede Globo hoje tem o Arnaldo Jabor e a Miriam Leitão falando o tempo inteiro de tortura (a jornalista foi torturada). Mas a Miriam estava na guerrilha. O tal do comandante [Carlos Brilhante] Ustra, que era um cara cruel para cacete, estava cumprindo missão. Dos dois lados tiveram perdas. A Comissão da Verdade, por exemplo, não considerou os 39 militares que foram assassinados durante o regime militar. Só levou de um lado. Outra coisa, ficar discutindo coisas que já estão resolvidas, não nos leva ao futuro. Essa guerra acabou.

P. Esse é o discurso do Bolsonaro, que quer se esquecer do passado.

R. É. Tem de ser daqui para frente. São coisas de quase sessenta anos atrás. Como vamos revirar a história? Para com isso.

P. Como você avalia a participação do Mourão na campanha do Bolsonaro? Ele tem feito falas polêmicas...

R. Eu acho que a imprensa edita muito. Mourão é um cara muito preparado, tem uma cultura baseada na metodologia da Escola Superior de Guerra, tem bom conhecimento filosófico, mas tem discurso muito pragmático. É um discurso que não é político. Aí, a imprensa pega uma palavra e constrói um discurso. Essa questão do 13º salário como jabuticaba, essa história de que o negro é indolente e que o índio é isso ou aquilo, não foi da fala dele (há registros na imprensa e em áudio das declarações). Acho que, em nenhum momento ele falou nada de estapafúrdio.

P. Quanto você tem recebido para ser consultor da campanha de Jair Bolsonaro?

R. Nem eu nem os outros membros dos grupos de trabalho recebemos nada. Somos todos voluntários. Não recebemos nem um centavo. Trabalhamos por um projeto de Brasil.

P. Como você se aproximou desse projeto?

R. Moro há 62 anos em Brasília. Tenho vinculação muito grande com artes marciais. Minha vida toda aos esportes. Já tive relação com vários políticos e autoridades por causa do caratê, até presidente da República.

P. Presidente foi o Fernando Collor?

R. Sim, o Collor. Eu ajudei na campanha dele porque ele ajudou muito o esporte. O Collor, quando tinha 18 anos, foi um dos primeiros campeões de caratê em Brasília. Ele ajudou muito o esporte. Desde sempre ajudei um ou outro político.

P. No que você atua, especificamente?

R. Sou coordenador de discussão em grupos ligados a pacto federativo, reforma política, Brasil produtivo. O mote da campanha é: Mais Brasil, Menos Brasília. Isso significa descentralização, diminuir a burocracia e as forças municipais. Essa que é a grande inovação da campanha. Em torno disso, a gente tem feito articulações com Confederação dos Municípios, com organizações estaduais e municipais, tentando discutir as melhores iniciativas para que o Governo, logo no começo, possa encaminhá-las ao Congresso. A ideia é propor a reorganização do funcionamento do Estado. Tenho convidado vários especialistas que vêm de diversas regiões do país. Trabalhamos em grupos, sugerimos medidas, as submetemos às plenárias e levamos para os generais Heleno e Ferreira.

 

Última modificação em Segunda, 05 Novembro 2018 17:42