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PRÓXIMO GOVERNADOR OU GOVERNADORA TERÁ QUE TER PULSO E CORAGEM PARA TOMAR DECISÕES, DIZ ERNANI SIQUEIRA

Posted On Terça, 01 Setembro 2026 15:52
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Da Redação

 

 

O elevado endividamento das famílias, as dificuldades enfrentadas pelo comércio e pelas empresas, a reforma tributária e o tamanho da máquina pública deverão impor grandes desafios aos governantes que assumirem seus mandatos em 2027. A avaliação é do empresário Ernani Soares Siqueira, uma das tradicionais lideranças empresariais do Tocantins.

Em entrevista ao O Paralelo 13, Ernani defendeu que o próximo governador ou governadora do Tocantins coloque o desenvolvimento econômico no centro da administração e tenha coragem para adotar medidas que, em sua avaliação, poderão até ser impopulares.

Com décadas de experiência no comércio e passagem por algumas das principais entidades empresariais do Estado, Ernani demonstra especial preocupação com o comprometimento da renda das famílias e seus reflexos sobre as empresas.

Para ele, a equação é relativamente simples: famílias endividadas consomem menos; a redução do consumo chega ao comércio; empresas com dificuldades reduzem investimentos; e toda essa cadeia termina afetando emprego e arrecadação.

O Paralelo 13 — O senhor demonstra muita preocupação com o endividamento. Por quê?

Ernani Siqueira — Quando você fala em tributação, mexe com todo mundo. E nós temos os dados mostrando o endividamento das empresas e o endividamento das pessoas. Isso precisa preocupar todos nós. Se não tivermos, a partir de janeiro, governos com pulso, coragem e disposição para tomar decisões pensando no futuro, e não apenas na próxima eleição, acredito que teremos anos muito difíceis pela frente. Essa é minha visão e minha impressão a partir daquilo que acompanho no ambiente empresarial.

 

O Paralelo 13 — E como esse endividamento chega ao comércio?

Ernani Siqueira — Chega diretamente. Se hoje o comércio está enfrentando dificuldades e os negócios estão ruins, temos que olhar também para o endividamento das pessoas. Veja os consignados, por exemplo. Muitas pessoas assumem compromissos por 48 meses. São quatro anos com uma parcela da renda comprometida. Se uma pessoa recebe seu salário, mas boa parte dele já está comprometida com empréstimos, cartão e outras dívidas, naturalmente sobra menos dinheiro para circular no comércio. É uma situação que preocupa.

 

O Paralelo 13 — O senhor acredita que esse cenário também pode atingir o sistema financeiro?

Ernani Siqueira — Essa é outra preocupação. Uma pessoa pode possuir patrimônio, imóveis, carros, terrenos, mas não ter liquidez. Para a economia funcionar, precisamos de dinheiro circulando. Quando empresas e famílias começam a enfrentar dificuldades simultaneamente, aumenta o risco para toda a cadeia. Minha preocupação é justamente chegarmos a uma situação em que todos tenham patrimônio ou créditos a receber, mas falte dinheiro circulando na economia.

 

O Paralelo 13 — E a reforma tributária? Como o senhor avalia esse novo cenário?

 

Ernani Siqueira — Tenho preocupação, principalmente com as pequenas empresas. Qualquer mudança tributária mexe com todo mundo. Empresários precisam compreender como funcionarão as novas regras, calcular seus custos e preparar suas empresas. O pequeno empresário normalmente possui menos estrutura para enfrentar mudanças. Por isso, precisamos de muita clareza, orientação e planejamento. Minha preocupação é que uma carga maior ou uma adaptação mal conduzida termine chegando justamente àqueles que possuem menos capacidade de absorver novos custos.

 

O Paralelo 13 — O senhor participou recentemente de um congresso nacional do setor lojista. Essa preocupação apareceu por lá?

Ernani Siqueira — Sim. O encontro em João Pessoa foi muito importante. Tivemos representantes de todo o Brasil e discutimos economia, inteligência artificial, comércio eletrônico, mudanças no comportamento do consumidor e também as dificuldades das empresas. Nós precisamos buscar conhecimento fora e trazer esse conhecimento para o Tocantins. Não podemos administrar uma empresa pensando apenas em amanhã. Precisamos pensar em como ela estará daqui a cinco ou dez anos.

 

O Paralelo 13 — E olhando especificamente para o Tocantins, qual deveria ser a primeira medida do próximo governador ou governadora?

Ernani Siqueira — A primeira coisa é estabelecer uma política voltada para o desenvolvimento, um desenvolvimento sustentável.

O governo precisa definir prioridades. Também acredito muito na gestão técnica. Não podemos simplesmente dividir espaços dentro do Estado entre grupos políticos. Precisamos colocar pessoas preparadas em cada área. Se um profissional está desempenhando bem sua função, ótimo. Se não está, o governador precisa ter autonomia para mudar. O interesse do Estado tem que estar acima da indicação política.

 

O Paralelo 13 — Então o senhor defende menos indicações políticas e mais critérios técnicos?

Ernani Siqueira — Exatamente. O governador ou governadora precisa ter pulso e coragem para colocar pessoas técnicas nos setores em que elas realmente entendam do assunto. Uma administração pública precisa funcionar. Não podemos manter alguém em determinada função apenas porque foi indicado por deputado, senador ou outro grupo político, caso o resultado não esteja aparecendo. Quem governa precisa ter liberdade e responsabilidade para cobrar resultados.

 

O Paralelo 13 — E quanto ao tamanho da estrutura administrativa?

Ernani Siqueira — Também precisa ser discutido. Acredito que será necessário cortar custos, avaliar estruturas, verificar onde é possível fundir secretarias e transformar algumas estruturas em superintendências. O Estado precisa analisar permanentemente o tamanho de sua máquina. Não estou falando em simplesmente cortar por cortar. Estou falando em eficiência.

Se duas estruturas podem funcionar juntas, por que manter duas estruturas completas? O dinheiro público precisa chegar àquilo que realmente interessa à população.

 

O Paralelo 13 — Isso poderá exigir medidas impopulares?

Ernani Siqueira — Poderá. E acredito que algumas decisões precisarão ser tomadas logo no primeiro ano. Quem assumir precisa ter coragem.

É muito difícil administrar pensando apenas na próxima eleição. Às vezes é necessário tomar uma decisão que não seja popular naquele momento, mas que seja importante para equilibrar as contas e permitir que o Estado continue investindo.

 

O Paralelo 13 — Essa preocupação também vale para os municípios?

Ernani Siqueira — Claro. As prefeituras também enfrentam enormes dificuldades. Os municípios possuem obrigações com pessoal, saúde, educação e infraestrutura, e os custos aumentam. É justo valorizar o trabalhador e garantir reajustes. Mas, ao mesmo tempo, precisamos discutir como os municípios conseguirão financiar suas responsabilidades.

Essa conta precisa fechar.

 

O Paralelo 13 — Qual deveria ser, então, a prioridade econômica do próximo governo?

Ernani Siqueira — Desenvolvimento. Precisamos criar condições para as empresas crescerem, atrair investimentos, fortalecer quem já está aqui e gerar empregos. Quando você fortalece uma empresa, ela compra, vende, contrata trabalhador, paga salário e movimenta outras empresas. O desenvolvimento não acontece apenas quando uma grande empresa chega ao Estado. Precisamos também cuidar das milhares de pequenas empresas que já estão funcionando aqui.

São elas que estão todos os dias com as portas abertas.

 

O Paralelo 13 — O senhor parece especialmente preocupado com os próximos quatro anos.

Ernani Siqueira — Estou. Mas preocupação não significa pessimismo absoluto. Significa que precisamos entender o tamanho dos desafios e agir. Eu costumo dizer que, se vier uma tempestade, precisamos saber navegar. O empresário está acostumado a enfrentar dificuldades, mas precisa de condições para trabalhar. O governo precisa fazer sua parte, as empresas precisam fazer a delas e a sociedade também. O que não podemos é ignorar os sinais.

 

ENDIVIDAMENTO PRECISA ENTRAR NO DEBATE ELEITORAL

A preocupação apresentada por Ernani encontra um Tocantins no qual o endividamento das famílias se tornou um tema econômico relevante.

E há uma diferença fundamental: endividamento não é sinônimo de inadimplência. Uma família que possui financiamento ou compras parceladas, mas mantém os pagamentos em dia, está endividada, porém não necessariamente inadimplente. Mesmo feita essa distinção, o comprometimento da renda possui impacto sobre o consumo e, consequentemente, sobre comércio e serviços.

É justamente esse efeito que Ernani procura colocar no centro do debate.

 

Em sua avaliação, candidatos ao Governo do Tocantins precisam ir além das promessas tradicionais de campanha e explicar qual será sua política de desenvolvimento, como pretendem estimular empresas, gerar empregos, melhorar o ambiente de negócios e administrar as contas estaduais.

Passadas as eleições, esses problemas continuarão sobre a mesa do próximo governador ou governadora.

QUEM É ERNANI SIQUEIRA

 

Ernani Soares Siqueira é empresário e administrador e integra a história do desenvolvimento do setor empresarial de Palmas desde os primeiros anos da Capital. Ao longo de sua trajetória, presidiu por dois mandatos a Associação Comercial e Industrial de Palmas (Acipa), comandou a Câmara de Dirigentes Lojistas de Palmas (CDL) e a Federação das Câmaras de Dirigentes Lojistas do Tocantins (FCDL-TO). Também presidiu o Conselho Deliberativo do Sebrae Tocantins e exerceu função de superintendente da instituição.

 

Na administração pública, integrou o governo Siqueira Campos à frente da área de Indústria, Comércio e Turismo, além de ter presidido o Conselho de Desenvolvimento Econômico do Tocantins. Em 2011, ganhou projeção nacional ao assumir a vice-presidência de Micro e Pequenas Empresas do Conselho Nacional de Secretários de Desenvolvimento Econômico (Consedic), representando o Tocantins nas discussões nacionais sobre desenvolvimento e fortalecimento dos pequenos negócios.

 

 

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O Paralelo 13

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