Imprimir esta página

DINHEIRO NÃO SUBSTITUI PRESENÇA E A POLÍTICA DO TOCANTINS PARECE ESQUECER DISSO

Posted On Terça, 21 Abril 2026 05:54
Avalie este item
(0 votos)

 

Por Edson Rodrigues

 

 

Um prefeito que perdeu a reeleição por poucos votos resumiu sua derrota em uma frase desconcertante: parou de ouvir motorista de Uber. Ele não falava sobre transporte, mas sobre perder o contato direto com a vida real, aquele que não passa por assessores, filtros ou interesses.

 

A conta fechava no papel pois obras foram entregues, programas em funcionamento, finanças organizadas. Ainda assim, a urna disse outra coisa. E disse o suficiente para revelar que gestão não é só número, é percepção. E percepção não se constrói dentro de gabinete. Se constrói na rua, no olhar, na escuta.

 

Esse episódio ajuda a entender um movimento cada vez mais visível no Tocantins, pois aqui a política entrou em campanha permanente, mas saiu das ruas. Não existe mais pré-campanha, muito menos pré-candidaturas. Os pedidos de votos são feitos publicamente. Tudo acontece às claras, deixando evidente que a sucessão já está em curso dentro das repartições públicas estaduais e municipais.

 

Nas bases, os pactos são fechados com prefeitos, vereadores, lideranças políticas e dirigentes partidários de forma tão natural que tudo passa despercebido. Nunca se viu tanto dinheiro público disponível para campanhas como o que se projeta para este ano. As convenções partidárias, que podem ocorrer até 5 de agosto, irão homologar os nomes, etapa que abre caminho para o registro individual de cada candidata e candidato.

 

 

A partir daí, de acordo com os critérios de cada direção partidária, a cota do fundo partidário destinada aos deputados detentores de mandato já chega carimbada diretamente das direções nacionais de cada agremiação.

 

Diante desse cenário, cresce uma ilusão de que dinheiro e estrutura são suficientes para garantir vitória. Não são!  A política tocantinense parece apostar que volume de recursos substitui presença. Que estratégia substitui escuta. Que marketing substitui vínculo.

 

 

Mas não substitui! Porque o eleitor não é planilha. Não é impulsionamento. Não é alcance digital. O eleitor é gente. E gente precisa ser olhada nos olhos. É no corpo a corpo que o político entende o humor da cidade, percebe o que não chega nos relatórios, escuta o que não está nas redes sociais. É ali, sem roteiro, que aparecem as insatisfações reais, as expectativas silenciosas, os sinais que nenhuma pesquisa capta com profundidade.

 

Quando o político se cerca apenas de quem depende dele, a realidade chega filtrada. E quando isso acontece, a campanha pode até ser forte na estrutura, mas é frágil na conexão.

 

Enquanto campanhas se organizam com cifras milionárias, falta presença. Falta rua. Falta tempo para ouvir sem pressa. Falta disposição para o desconforto de escutar o que não se quer ouvir.

 

AS PESQUISAS NÃO VOTAM

 

 

As pesquisas eleitorais, cada vez mais presentes no jogo político, têm alimentado uma falsa sensação de segurança em muitos candidatos. Números que apontam liderança confortável acabam sendo tratados como garantia de vitória, quando, na prática, representam apenas um retrato momentâneo, muitas vezes distante da realidade que se forma no dia da eleição.

 

Não são raros os casos em que levantamentos apresentam resultados que não se confirmam nas urnas. Algumas pesquisas, inclusive, chegam a ser questionadas ou até invalidadas pela Justiça Eleitoral por não cumprirem exigências estabelecidas pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE), o que reforça a necessidade de cautela na sua leitura.

 

 

No Tocantins, decisões recentes da Justiça Eleitoral apontaram irregularidades em levantamentos que deixaram de atender critérios obrigatórios estabelecidos pelo TSE. Em um desses casos, um instituto chegou a ser multado em R$ 50 mil por divulgar pesquisa considerada irregular. Ainda assim, instituições com histórico de questionamentos seguem atuando no ambiente eleitoral, muitas vezes repetindo práticas já contestadas. Situações como essa acendem um alerta de que a divulgação de pesquisas exige rigor técnico e compromisso ético, sob o risco de induzir o eleitor a percepções distorcidas da realidade.

 

No Tocantins, em 2024, um candidato a prefeito de uma das maiores cidades do estado chegou ao período eleitoral com pesquisas em mãos que indicavam cerca de 52% das intenções de voto. O resultado final, no entanto, foi outro: a vitória ficou com o adversário.

 

Porque, no fim, eleição não se decide apenas com investimento. Se decide com vínculo. Com confiança. Com reconhecimento. E, como mostrou aquele prefeito, às vezes a diferença entre vencer e perder está exatamente no que muitos passaram a ignorar: o eleitor, olho no olho.

 

 

 

{loadposition compartilhar} {loadmoduleid 252}
O Paralelo 13

Mais recentes de O Paralelo 13

Itens relacionados (por tag)