Nos primeiros oito anos, a Universal chegou a 195 templos em 15 estados brasileiros, segundo a própria instituição
Edir Macedo fica de fora de buscas da PF por morar nos EUA
POR FOLHAPRESS
O Banco Digimais, alvo de operação da Polícia Federal nesta terça-feira (23) pertence ao bispo Edir Macedo, 81. Fundador da Igreja Universal do Reino de Deus e dono do Grupo Record de comunicação, tem patrimônio estimado de R$ 9,6 bilhões, segundo lista de bilionários da Forbes.
Macedo nasceu no Rio de Janeiro em 1945. Criado em família católica, tornou-se protestante aos 19. No início da vida adulta, trabalhou em órgãos públicos do estado natal. Criou, em 1975, a instituição Cruzada Religiosa do Caminho Eterno.
Dois anos depois, ao lado do cunhado Romildo Ribeiro Soares conhecido como R. R. Soares deu início à Universal. Em 1980, a parceria foi rompida e Soares fundou a Igreja Internacional da Graça de Deus.
Nos primeiros oito anos, a Universal chegou a 195 templos em 15 estados brasileiros, segundo a própria instituição. Quando Edir Macedo iniciou a compra da TV Record, em 1989, somava 571 espaços religiosos dentro e fora do Brasil. Hoje a igreja de Macedo está em 150 países, segundo a Universal, e prega o evangelho em 102 línguas.
O bispo adquiriu a TV Record por US$ 45 milhões em valores da época (cerca de R$ 620 milhões hoje). A rede de televisão pertencia antes ao grupo Sílvio Santos e à família Machado de Carvalho. Para garantir a operação, Macedo não participou das negociações.
Em 1992, o bispo foi preso em São Paulo sob acusação de charlatanismo. O Ministério Público de São Paulo alegava que o patrimônio de Macedo bispo seria proveniente, na maioria, da atividade à frente da Igreja Universal. A prisão durou 11 dias e terminou após pressão de fieis e artistas, e o caso foi arquivado.
Na política, sempre esteve próximo do poder. Apoiou todos os presidentes eleitos desde a redemocratização. Em 2022, declarou voto em Jair Bolsonaro (PL), mas declarou logo após o resultado do segundo turno que Luiz Inácio Lula da Silva (PT) foi eleito por vontade de Deus.
A entrada de Edir Macedo no mundo financeiro se deu em 2020, quando ele comprou o antigo banco Renner, ligado à família que fundou a varejista de roupas. Com a aquisição, o nome mudou para Digimais, a sede foi transferida do Rio Grande do Sul para São Paulo. Macedo, por meio do grupo Record, já era acionista minoritário do banco desde 2009.
Edir Macedo fica de fora de buscas da PF por morar nos EUA
O bispo Edir Macedo é apontado pela Polícia Federal como um dos responsáveis por operar um suposto esquema de fraudes bancárias no Banco Digimais, instituição ligada à Igreja Universal do Reino de Deus. A PF pretendia, inclusive, solicitar mandados de busca e apreensão contra ele, mas a ordem não avançou porque o líder religioso atualmente mora nos Estados Unidos
Apesar disso, Macedo teve seu sigilo bancário quebrado a pedido da PF, que realizou uma operação contra dirigentes do Digimais na manhã desta terça-feira (23). As investigações tiveram como base relatórios produzidos pelo Banco Central (Bacen), que identificaram indícios de graves irregularidades na administração da instituição financeira.
Segundo as investigações, o Digimais “adotou práticas financeiras temerárias e estreitamente análogas” às do Banco Master, com a emissão de Certificados de Depósito Bancário (CDBs) acima do valor operado no mercado e, possivelmente, sem lastro e regularidade documental. A PF aponta que aproximadamente R$ 600 milhões do banco de Macedo estariam expostos a carteiras de crédito da antiga instituição de Daniel Vorcaro.
Por conta dessa estimativa, a Justiça determinou o bloqueio de R$ 670 milhões em bens ligados à instituição. Procurados, o Digimais e Edir Macedo ainda não se manifestaram. Ao todo, a PF solicitou a quebra de 18 sigilos bancários e fez nove pedidos de busca e apreensão.
De acordo com a PF, a emissão de CDBs pelo Digimais acontecia paralelamente à valorização contínua de ativos que passavam por rodadas de reavaliação. Em um intervalo de cinco meses, a instituição teria transformado uma compra de R$ 71 milhões em um patrimônio de R$ 741 milhões em um fundo de investimento, uma valorização de quase 1.000%.
Em outubro de 2023, essas movimentações foram apontadas como irregulares pelo Banco Central, que determinou a reversão das rendas do Digimais para o seu valor original. A instituição, contudo, solicitou um prazo de cinco anos para obedecer à determinação. Foi nesse período que Macedo teria tentado revender o banco, em um movimento considerado “burla à determinação” do Bacen, o que configuraria crime financeiro.
“A articulação em sucessão de fundos de investimentos para mascarar a aquisição de direitos creditórios por valores em inferioridade aos declarados no passo de avaliação, com a utilização de pareceres com o intuito de inflar o patrimônio da instituição de finanças, configura indícios de crime de gestão fraudulenta, delito previsto no artigo 4º da Lei nº 7.492/1986”, afirma o documento da Polícia Federal ao qual o SBT News teve acesso.
A PF lembra que, em janeiro de 2025, Maurício Quadrado, ex-sócio do Master, tentou adquirir o Digimais por meio da holding Bluebank, mas a operação foi vetada pelo Banco Central. A PF diz que os dois bancos utilizaram a garantia do Fundo Garantidor de Créditos (FGC) como uma espécie de "fiador" de suas práticas.