Edson Rdrigues e Edivaldo Rodrigues
O tabuleiro político do Tocantins entrou, de vez, em ebulição. Nos últimos dias, uma sequência de movimentos, recados públicos e articulações de bastidores expôs fissuras, redesenhou alianças e antecipou o clima da disputa de 2026. No centro dessa engrenagem, o Palácio Araguaia tenta manter coesão enquanto lida com ruídos internos e pressões externas, algumas, nada discretas.
KÁTIA ABREU NO JOGO

A filiação da ex-senadora Kátia Abreu ao PT tocantinense, articulada a pedido do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, com aval do presidente nacional do partido Edinho Silva e aplausos da ex-presidente Dilma Rousseff, funcionou como catalisador de uma reorganização política que já vinha sendo gestada.
O problema não foi apenas o movimento em si, mas os “ingredientes” que vieram junto. Nos bastidores, cresceu a percepção de que houve tentativa de esvaziar e até constranger a pré-candidatura ao Senado de Carlos Gaguim, um nome com trajetória consolidada e capilaridade eleitoral em regiões estratégicas do estado.
A leitura, em parte da classe política, é de que essas ações partiram de dentro do próprio ambiente palaciano, criando uma tensão desnecessária entre Gaguim e o governador Wanderlei Barbosa. O efeito foi desgaste, ruído e risco de fragmentação.
WANDERLEI SE MANIFESTA

Coube ao próprio governador agir para conter a crise. Em um movimento calculado, durante o ato de pré-lançamento da candidatura a deputado federal do ex-secretário da Educação Fábio Vaz, Wanderlei Barbosa fez mais do que um discurso, fez política em estado puro.
Diante de milhares de pessoas, prefeitos, ex-prefeitos, vereadores e deputados estaduais, o governador adotou um tom de pacificação e reconhecimento. Reafirmou apoio a Fábio Vaz e, principalmente, colocou ordem na disputa majoritária ao declarar que o grupo palaciano conta com três pré-candidatos ao Senado:
Eduardo Gomes, Carlos Gaguim e Eli Borges.
A mensagem mostrou que não exclusão, mas que há uma disputa interna e vencerão os dois mais fortes. O gesto foi interpretado como um freio nas tensões e um recado direto contra movimentos de isolamento dentro da própria base.
DORINHA NO CENTRO DA SUCESSÃO

No mesmo evento, em Palmeirópolis, Wanderlei Barbosa deu outro passo decisivo e abraçou publicamente sua pré-candidata ao governo, Professora Dorinha Seabra, cravando-a como sua sucessora.
Ao afirmar que Dorinha reúne “todos os pré-requisitos” para governar o estado, o governador consolidou um nome e sinalizou ao grupo que o jogo sucessório tem comando e direção.
BLOCO DE OPOSIÇÃO E CINTHIA RIBEIRO

Enquanto isso, o bloco formado por PSDB e MDB se movimenta com método. Uma reunião, prevista para acontecer nesta segunda-feira, 20 de abril, entre Vicentinho Júnior, Amélio Cayres e Alexandre Guimarães deve redefinir os próximos passos da oposição.
No centro dessas articulações surge com força o nome da ex-prefeita de Palmas, Cinthia Ribeiro. Mesmo em repouso para tratamento de uma pneumonia, Cinthia segue ativa politicamente, mantendo conversas com lideranças e interlocução direta com a cúpula nacional do PSDB, especialmente com Aécio Neves.
Nos bastidores, a possibilidade de sua candidatura ao Senado ganha corpo. Caso se confirme, Cinthia entra na disputa com densidade política, visibilidade e capacidade de comunicação, podendo se consolidar como uma novidade competitiva na corrida pelas duas vagas.

O desenho que começa a se formar é Vicentinho Júnior como pré-candidato ao governo, Amélio Cayres como vice e Alexandre Guimarães compondo a disputa ao Senado ao lado de Cinthia Ribeiro, uma chapa que, se confirmada, reposiciona o bloco oposicionista com força real no cenário estadual.
A BASE QUE CONSTRANGE O GOVERNO
Se no campo eleitoral o governador mostra habilidade, no Legislativo o cenário preocupa. O episódio envolvendo a não apreciação de um projeto de R$ 56 milhões, recurso a fundo perdido, expôs uma fragilidade difícil de ignorar.
O projeto sequer avançou nas comissões, apesar do prazo. O governo precisou intervir diretamente para adiar a análise por 30 dias.

O mais grave, no entanto, foi o silêncio da base. Dos 15 deputados considerados governistas, muitos não compareceram, incluindo o líder do governo, Ivory de Lira. Nenhuma defesa pública consistente foi feita.
O episódio acendeu um alerta no Palácio Araguaia pois se há apoio formal, falta um alinhamento efetivo. Na prática, o governo se viu exposto e constrangido.
LEALDADE EM XEQUE
A avaliação nos bastidores é direta, afinal não basta integrar a base para usufruir dos bônus do poder; é preciso sustentá-lo nos momentos críticos.
O governador, que tem se dedicado à consolidação do grupo político, espera mais do que presença protocolar, espera lealdade, compromisso e ação. Porque, no ritmo atual, a pergunta que ecoa nos corredores do poder é o que acontecerá quando o calendário eleitoral apertar e as decisões exigirem posicionamento claro?
UM JOGO ABERTO
O Tocantins entra em um ciclo decisivo com múltiplos polos de força, candidaturas competitivas e um governo que tenta equilibrar liderança política com gestão de sua própria base.
A “salada mista” está posta. Mas, como mostram os últimos movimentos, nem todos os ingredientes convivem em harmonia e alguns já começaram a azedar.
No fim, como sempre, a política segue sendo o território onde gestos, silêncios e timing valem tanto quanto votos.