Por Edson Rodrigues
Depois de colocar sobre a mesa os resultados das pesquisas de intenção de voto divulgadas nesta última semana de agosto, o Observatório Político de O Paralelo 13 entende que chegou a hora de avançar na reflexão sobre o processo sucessório tocantinense. E há uma pergunta que começa a ganhar força: o Tocantins caminha para uma eleição de governador em dois turnos?
Ainda não existe resposta definitiva. Pesquisa não é urna e seria precipitado afirmar que o segundo turno é inevitável. Mas os números divulgados pela Quaest, Real Time Big Data e Paraná Pesquisas apresentam sinais suficientes para que essa possibilidade deixe de ser apenas uma hipótese e passe a fazer parte das estratégias dos principais grupos políticos.
A pouco mais de um mês das urnas, nenhum candidato aparece próximo da maioria absoluta dos votos válidos necessária para liquidar a eleição no primeiro turno. Ao mesmo tempo, os levantamentos revelam parcelas importantes do eleitorado ainda indecisas ou suscetíveis a mudar de posição.
A eleição está aberta. E o segundo turno precisa entrar definitivamente no radar das campanhas.
O QUE DIZEM OS NÚMEROS

Segundo as pesquisas, Professora Dorinha e Vicentinho Júnior aparecem tecnicamente empatados, ambos ainda abaixo dos 40% das intenções de voto. Ao mesmo tempo, os levantamentos revelam um contingente expressivo de eleitores indecisos e uma parcela significativa que admite poder mudar sua escolha até o dia da votação. Apesar das diferentes metodologias adotadas pelos institutos, os números convergem quando demonstram que há um amplo espaço eleitoral ainda a ser conquistado, e a disputa pelo Governo do Tocantins permanece aberta.
SEGUNDO TURNO: O QUE DIZ A LEI
A Constituição Federal e a legislação eleitoral estabelecem que, para ser eleito governador no primeiro turno, um candidato precisa alcançar maioria absoluta dos votos válidos. Votos brancos e nulos não entram nesse cálculo. Se nenhum candidato atingir essa maioria absoluta, haverá segundo turno entre os dois mais votados. Em termos simples: não basta chegar em primeiro. Para acabar a eleição no primeiro turno é preciso ultrapassar a metade dos votos válidos.
36 ANOS DEPOIS?
O Tocantins conhece bem pouco uma eleição estadual em dois turnos.
Desde a promulgação da Constituição de 1988 e a criação do Estado, houve apenas uma eleição para governador decidida dessa maneira: 1990. E houve uma curiosidade histórica: o segundo turno colocou frente a frente dois Moisés — Moisés Avelino e Moisés Abrão.
Avelino venceu e chegou ao Palácio Araguaia. Passados 36 anos, o Tocantins pode novamente experimentar uma disputa de segundo turno para governador. Não estamos afirmando que acontecerá. Estamos dizendo que as campanhas precisam estar preparadas para essa possibilidade.
A ELEIÇÃO DO PRIMEIRO TURNO É UMA. A DO SEGUNDO É OUTRA

Esse talvez seja o ponto político mais importante desta reflexão. Uma eleição de segundo turno não é simplesmente uma continuação do primeiro. É praticamente uma nova eleição.
No primeiro turno existem candidatos a governador, Senado, Câmara Federal e Assembleia Legislativa percorrendo municípios, mobilizando prefeitos, vereadores, lideranças, militantes, cabos eleitorais e estruturas partidárias.
No dia seguinte à votação, tudo muda.
Os deputados estaduais e federais já terão sido eleitos. Os senadores também. Alguns estarão comemorando; outros estarão contabilizando prejuízos políticos e financeiros. Surgirão frustrações, cobranças, ressentimentos e novas negociações.
Os candidatos a governador que ficarem fora do segundo turno também terão que decidir que posição tomar. É aí que começa outro campeonato. E quem chegar ao segundo turno imaginando que manterá automaticamente toda a estrutura do primeiro poderá cometer um erro grave.
PALÁCIO ARAGUAIA PRECISA PENSAR NESSA HIPÓTESE

Para o grupo governista, a questão merece atenção especial. O governador Wanderlei Barbosa possui uma grande aprovação de sua gestão. Mas, como já destacamos em nossa análise anterior, Wanderlei não estará na urna para governador.

A candidata de seu grupo é Professora Dorinha.
Portanto, o desafio não é apenas ter um governador bem avaliado. É transformar essa avaliação, a estrutura partidária, o apoio de prefeitos, parlamentares e lideranças em votos para a candidata escolhida pelo grupo.
Se houver segundo turno, essa engrenagem terá que ser novamente mobilizada. Por isso, a campanha governista precisa trabalhar simultaneamente com duas estratégias: buscar uma votação forte no primeiro turno e estar preparada para uma eventual segunda batalha.
VICENTINHO TAMBÉM NÃO PODE CONFUNDIR PESQUISA COM URNA

Para Vicentinho Júnior, os empates técnicos são politicamente animadores. Isso demonstra competitividade, mas não significa vitória. Vicentinho precisa continuar fazendo aquilo que os números indicam que funcionou e ampliar sua presença, conversar com o eleitor e evitar erros. Em uma eleição tão equilibrada, salto alto pode custar caro.
REDES SOCIAIS NÃO RESOLVERAM
Há outro recado dos números que todos os candidatos deveriam ouvir. As redes sociais são fundamentais em uma campanha moderna. WhatsApp, Instagram, vídeos, transmissões e demais plataformas têm enorme capacidade de mobilização. Mas não resolveram sozinhas o problema dos indecisos.
Quando uma pesquisa espontânea encontra praticamente metade dos entrevistados sem indicar candidato a governador, existe um sinal evidente de que uma grande parcela da sociedade ainda não foi alcançada de maneira suficiente pelas campanhas.
Não adianta terceirizar campanha, o candidato precisa furar a bolha e se fazer conhecido. É fundamental gastar sola de sapato, enfrentar o calor do Tocantins e percorrer os municípios. Política se faz olho no olho!
COMUNICAÇÃO NÃO É APENAS REDE SOCIAL

Também existe espaço para uma reflexão sobre a relação das campanhas com os veículos de comunicação tocantinenses. Uma campanha não pode imaginar que um vídeo de alguns segundos nas redes sociais substitui completamente uma entrevista, um debate ou uma reportagem em que o candidato precisa explicar suas propostas.
Os veículos de comunicação continuam tendo papel relevante de questionar, apresentar trajetórias e permitir que o eleitor conheça melhor quem pretende governá-lo. O candidato precisa dizer o que pretende fazer nas diferentes áreas da gestão e é assim que uma eleição passa a ser uma escolha consciente.
QUEM ESTÁ INDECISO NÃO ESTÁ NECESSARIAMENTE DESINTERESSADO
Tratar o eleitor indeciso como alguém que não acompanha a eleição tem sido um erro grave nas campanhas, pois muitas vezes acontece o contrário e o eleitor pode simplesmente estar esperando, observando, comparando e querendo saber quem apresenta as melhores propostas. E é justamente esse eleitor que poderá decidir se haverá ou não segundo turno.
A CAMPANHA COMEÇA AGORA
Dorinha tem estrutura. Vicentinho mostrou competitividade. Laurez Moreira e Ataídes Oliveira ainda disputam espaço e podem interferir diretamente na matemática do primeiro turno. Os demais candidatos também retiram votos do universo necessário para alguém alcançar a maioria absoluta. Quanto maior a dispersão dos votos válidos entre candidaturas competitivas, mais difícil tende a ser para um único nome ultrapassar os 50% dos votos válidos.
Mas ainda faltam cinco semanas de campanha. E neste período um debate pode mudar tudo, uma nova aliança, uma declaração infeliz pode fazer o eleitor mudar de ideia.
O Observatório Político de O Paralelo 13 entende que seria precipitado escrever hoje que o Tocantins terá inevitavelmente segundo turno. Os números não permitem essa certeza. Mas também seria fechar os olhos para a realidade não reconhecer que a possibilidade de um segundo turno é hoje concreta e merece entrar definitivamente no planejamento político das campanhas.
Os números deram o aviso. Agora é hora de sair do ar-condicionado, colocar o pé na estrada e gastar sola de sapato.
Com a palavra, os bravos eleitores e eleitoras do nosso Tocantins.