Por Edson Rodrigues e Edivaldo Rodrigues
A menos de três semanas do primeiro turno das eleições de 4 de outubro, existe um número na mais recente pesquisa Paraná Pesquisas que merece tanta atenção quanto os percentuais alcançados por Professora Dorinha Seabra e Vicentinho Júnior.
É o número daqueles que, quando perguntados espontaneamente em quem pretendem votar para governador, ainda não apresentam um nome: 42,7% responderam que não sabem ou não opinaram.
É muita gente.
Principalmente para uma eleição que já atravessou meses de pré-campanha, convenções, lançamento de candidaturas, viagens pelos 139 municípios, reuniões políticas, propaganda eleitoral, programas gratuitos no rádio e na televisão, redes sociais, caminhadas e mobilização das estruturas partidárias.
A Paraná Pesquisas ouviu 1.504 eleitores entre 12 e 14 de setembro, em 75 municípios. A margem de erro informada é de 2,6 pontos percentuais, com nível de confiança de 95%. O levantamento foi contratado pela Federação das Indústrias do Estado do Tocantins (Fieto) e está registrado na Justiça Eleitoral sob o número TO-08578/2026.
E é justamente a diferença entre a pesquisa espontânea e a estimulada que o Observatório Político de O Paralelo 13 considera uma das informações mais importantes desta rodada.
42,7%: O QUE ESSE NÚMERO REALMENTE DIZ?

Na espontânea, quando o entrevistador não apresenta os nomes dos candidatos, Professora Dorinha aparece com 25,3%, Vicentinho Júnior com 21,1%, Laurez Moreira com 2,4%, Siqueira Campos Júnior com 1,4%, Ataídes Oliveira com 1,1% e Du Pereira com 0,1%. Outros nomes somam 0,9%, enquanto 5,5% dizem ninguém, branco ou nulo.
E 42,7% não sabem ou não opinam. Mas é preciso fazer uma distinção importante. Isso não significa necessariamente que 42,7% estejam completamente indecisos. Quando os nomes dos candidatos são apresentados, no cenário estimulado, o percentual de “não sabe/não opinou” despenca para apenas 4,9%. Dorinha alcança 40,6%, Vicentinho 34,1%, Laurez 6,5%, Siqueira Campos Júnior 4,9%, Ataídes 2,8%, Du Pereira 0,5% e Witer Naves 0,3%. Brancos e nulos ficam em 5,5%.
Está aí a engrenagem que precisa ser observada. Existe uma parcela enorme do eleitorado que ainda não carrega espontaneamente na cabeça o nome de seu candidato, embora grande parte consiga fazer uma escolha quando recebe as opções.
Isso pode significar voto pouco cristalizado. E voto pouco cristalizado pode mudar.
DORINHA NA FRENTE, VICENTINHO NA PERSEGUIÇÃO

A fotografia de 12 a 14 de setembro mostra Professora Dorinha numericamente à frente. No cenário estimulado, Dorinha registra 40,6%, contra 34,1% de Vicentinho Júnior, diferença de 6,5 pontos percentuais. Considerados apenas os votos válidos, a pesquisa apresenta Dorinha com 45,3% e Vicentinho com 38,1%.
Mas isso é a fotografia daquele período.
Não é resultado de urna.
Considerando esses percentuais de votos válidos apresentados pelo levantamento, nenhum candidato aparece acima de 50%, patamar necessário para vencer a disputa pelo Governo já no primeiro turno. Portanto, os números publicados não permitem afirmar que haverá segundo turno, mas tampouco permitem descartá-lo. É justamente nesse espaço que entram os eleitores ainda pouco definidos.
NÃO CONFUNDAM PESQUISA ESTIMULADA COM VOTO CONSOLIDADO

O alerta do Observatório é simples. Quando o entrevistador apresenta uma lista e o eleitor escolhe um candidato, isso não significa automaticamente que aquele voto esteja definitivamente consolidado.
Existe o eleitor decidido, o eleitor inclinado. Aquele simpatiza com determinado candidato, mas ainda admite mudar. Existe aquele que somente começou a prestar atenção na eleição agora. E existe quem só tomará sua decisão final diante da urna. Por isso, talvez o número politicamente mais provocador desta pesquisa não seja 40,6% nem 34,1%.
Talvez seja 42,7%. É o tamanho do grupo que não apresentou espontaneamente um candidato a governador.
“EFEITO MANADA”? É PRECISO TER CUIDADO
O Observatório Político levanta uma pergunta: poderá existir uma movimentação coletiva de última hora capaz de alterar substancialmente a fotografia apresentada pelas pesquisas? Pode haver mudança. Mas seria precipitado afirmar hoje que haverá um “efeito manada” ou em qual direção ele ocorreria.
Eleição não funciona como uma fórmula matemática.
O eleitor pode decidir nas últimas semanas por avaliação do governo, identificação partidária, propostas, desempenho nos debates, influência familiar, situação econômica, rejeição a um candidato ou simplesmente pela impressão formada ao longo da campanha.
O voto é secreto. E, dentro da cabine, desaparecem prefeito, governador, senador, deputado, marqueteiro, cabo eleitoral e pesquisa. Ficam o eleitor e a urna.
1,18 MILHÃO DE ELEITORES

O Tocantins possui 1.182.307 pessoas aptas a votar em 2026, segundo dados oficiais do TRE-TO. Esse número ajuda a dimensionar o tamanho da disputa. Os grandes centros urbanos possuem peso decisivo, mas apresentam também um eleitorado mais numeroso, disperso e menos dependente das estruturas políticas tradicionais.
ABRAM A “CAÇAPA DO ZÓI”
Por isso, usando uma expressão bem tocantinense, o Observatório deixa um alerta às campanhas: abram a “caçapa do zói”. Não terceirizem suas candidaturas. Nesta reta final, os candidatos proporcionais também estão travando suas próprias batalhas pela sobrevivência eleitoral. Deputados estaduais e federais precisam primeiro garantir os votos necessários para seus próprios mandatos.
Quando chega esse momento, o instinto de sobrevivência política fala alto.
É o velho “salve-se quem puder” eleitoral.
Uma candidatura majoritária que acreditar que todos os deputados, prefeitos, vereadores e lideranças de sua coligação estarão dedicando a mesma energia à eleição para governador poderá encontrar uma realidade diferente nas ruas.
OS PROPORCIONAIS DE DORINHA E A ACUSAÇÃO DOS “JUDAS”
É justamente nesse ambiente que uma fonte ligada ao grupo governista fez uma avaliação dura, em conversa reservada com o Observatório Político de O Paralelo 13. Segundo esse interlocutor, existem candidatos proporcionais ligados à base que estariam concentrando esforços exclusivamente nas próprias campanhas e deixando de pedir votos com a mesma intensidade para Professora Dorinha.
A fonte utilizou uma comparação carregada de simbolismo religioso, classificando esses candidatos como “Judas” por, em sua avaliação, “negarem Dorinha” durante a campanha. Trata-se da avaliação política do interlocutor e não de uma constatação independente deste jornal.
Segundo a mesma fonte, alguns desses grupos teriam indicações políticas no Executivo estadual, incluindo cargos comissionados e contratos temporários em diferentes municípios. O interlocutor afirmou ainda que a atuação dessas lideranças estaria sendo acompanhada pela estrutura política governista e que o comportamento eleitoral poderá repercutir nas relações políticas após a eleição. O Observatório registra a declaração porque ela revela algo maior do que a insatisfação de uma liderança.
Revela a tensão natural da reta final entre eleição majoritária e proporcional. Cada candidato a deputado sabe que, no dia 4 de outubro, sua própria sobrevivência estará sendo decidida.
O ELEITOR LEVA A VIDA REAL PARA A URNA

Existe ainda outro erro que as campanhas não podem cometer: acreditar que eleição acontece apenas dentro da política.
O eleitor não chega à cabine carregando somente santinho, chega carregando a própria vida, depois de passar pelo supermercado, de pagar o aluguel, de olhar a fatura do cartão, pagar o combustível, conferir o salário, depois de administrar prestações e dívidas.
O servidor público pode chegar pensando também no consignado. O comerciante pensa nas vendas. O empresário pensa no caixa. O trabalhador pensa no emprego. A dona de casa conhece o preço dos alimentos melhor do que qualquer discurso eleitoral. São essas experiências concretas que podem entrar na decisão política.
Por isso, qualquer afirmação sobre o comportamento desses eleitores precisa ser feita com cautela. Sem uma pesquisa específica, não é possível dizer quantos votarão motivados principalmente pela economia nem em qual candidatura esse sentimento será convertido. Mas ignorar o cotidiano econômico do eleitor seria igualmente um erro.
O SENADO MOSTRA UMA INDECISÃO AINDA MAIOR

Se os 42,7% da espontânea para governador chamam atenção, a pesquisa para o Senado apresenta um número ainda mais expressivo. Na espontânea, 61,7% não sabem ou não opinam sobre seus votos para senador. Eduardo Gomes aparece com 11,6%, Alexandre Guimarães com 9%, Carlos Gaguim com 6,4%, Eli Borges com 4,7%, Paulo Mourão com 3,3%, Vanderlei Luxemburgo com 2,1% e Ronaldo Dimas com 1,9%.
Na estimulada, Eduardo Gomes aparece com 36%, Alexandre Guimarães com 24,5% e Gaguim com 22,7%, seguidos pelos demais candidatos. Como o eleitor escolherá dois senadores, a soma dos percentuais pode ultrapassar 100%.
Isso mostra o tamanho do território ainda em disputa, principalmente pelo segundo voto.
PESQUISA NÃO É PROFECIA
O Observatório também faz uma ressalva necessária sobre as pesquisas. Todo levantamento eleitoral deve ser analisado por sua metodologia, tamanho e distribuição da amostra, período de campo, margem de erro, nível de confiança, contratante e registro na Justiça Eleitoral.
O que não se deve fazer, sem evidências, é afirmar que determinado instituto manipulou resultados para agradar quem contratou a pesquisa. Neste levantamento, há informações objetivas para o leitor avaliar: 1.504 entrevistas, 75 municípios, campo entre 12 e 14 de setembro, margem de erro de 2,6 pontos percentuais, confiança de 95% e registro TO-08578/2026. Pesquisa é instrumento de leitura do momento. Não possui fé pública sobre o futuro.
A ELEIÇÃO QUE COMEÇA AGORA

Talvez seja justamente esse o grande recado da nova Paraná Pesquisas. Existe uma parcela do eleitorado que, espontaneamente, ainda não apresenta um nome para governador. E isso acontece faltando menos de três semanas para a votação.
É nesse eleitor que as campanhas precisam prestar atenção. No dia 4 de outubro, quando entrar sozinho na cabine, ele não precisará explicar sua escolha a ninguém. A pesquisa mede o eleitor quando ele responde. A urna registra o eleitor quando ninguém está olhando.
E entre uma coisa e outra ainda existem quase três semanas de campanha. É justamente nesse espaço que a eleição do Tocantins ainda será disputada.