Por Edson Rodrigues e Edivaldo Rodrigues
O primeiro turno das eleições de 2026 deixou lições que merecem ser examinadas com atenção. Uma delas diz respeito aos institutos de pesquisa eleitoral, à responsabilidade de quem contrata e interpreta seus levantamentos e à maneira como os números divulgados antes das urnas podem influenciar o comportamento de candidatos, coordenadores de campanha e lideranças políticas.
Outra lição envolve o encerramento de um ciclo de governo. O governador Wanderlei Barbosa ainda tem responsabilidades administrativas a cumprir, independentemente de quem vencerá o segundo turno para o comando do Palácio Araguaia. Os últimos meses de uma gestão exigem atenção redobrada às contas públicas, aos atos administrativos e à prestação de contas perante os órgãos de controle.
São assuntos diferentes, mas que se encontram em um mesmo ponto: na política, expectativas não substituem resultados, popularidade não dispensa responsabilidade e nenhum mandato afasta o dever de prestar contas.
PESQUISAS ELEITORAIS

A Associação dos Veículos de Comunicação do Estado do Tocantins (AVECOM) divulgou nota parabenizando o Portal Stylo, O Girassol e Folha Capital pelo trabalho de divulgação de pesquisas eleitorais durante o primeiro turno.
A entidade identificou os responsáveis pelos levantamentos: Instituto ProMotion/Stylo, WS Editora Girassol Ltda. e IPEX, respectivamente. Na avaliação apresentada pela associação, os resultados divulgados por esses veículos foram compatíveis com o cenário posteriormente verificado nas urnas, consideradas as respectivas margens de erro.
A AVECOM também defendeu a valorização das empresas tocantinenses, destacando a capacidade técnica dos profissionais que conhecem a realidade política, econômica e social do Estado.
O reconhecimento é importante para o mercado regional de comunicação. Mas o debate sobre pesquisas eleitorais precisa ir além da valorização institucional e alcançar a responsabilidade de todos os envolvidos na produção, contratação, divulgação e interpretação dos levantamentos.
Durante a campanha, pesquisas de diferentes institutos apresentaram cenários distintos. Alguns levantamentos locais se aproximaram mais do resultado das urnas, enquanto outros, inclusive de institutos nacionais, indicaram a possibilidade de vitória de Professora Dorinha Seabra ainda no primeiro turno.
A diferença entre a expectativa e o resultado oficial mostrou que os números precisam ser lidos com cautela. Uma pesquisa representa um retrato de determinado momento, dentro de uma metodologia, de uma amostra e de uma margem de erro. Não é garantia de resultado eleitoral.
QUANDO A PESQUISA VIRA CERTEZA, A POLÍTICA PODE PERDER O CHÃO

O problema começa quando números favoráveis deixam de ser tratados como indicadores e passam a ser encarados como confirmação antecipada da vitória.
No caso da campanha governista, a expectativa de uma vitória de Dorinha Seabra no primeiro turno foi acompanhada, segundo relatos de bastidores, por um ambiente de confiança excessiva entre parte dos aliados. O próprio governador Wanderlei Barbosa teria demonstrado acreditar na possibilidade de encerramento da disputa já na primeira votação.
A leitura política que se pode fazer desse cenário é que a confiança nos levantamentos pode ter influenciado a postura de setores da campanha. Em política, porém, acreditar que a vitória está garantida é diferente de trabalhar para conquistá-la.
O resultado oficial impediu a definição da eleição no primeiro turno. Dorinha e Vicentinho Júnior voltaram à disputa em uma nova etapa, com a necessidade de reconstruir alianças, ampliar o diálogo com o eleitor e conquistar votos.
É nesse ponto que cabe uma reflexão: campanhas eleitorais não podem permitir que a euforia dos números substitua o contato com a realidade. Nenhum candidato deve confundir liderança em pesquisa com vitória consumada. Nenhum coordenador pode considerar dispensável o trabalho de convencimento porque um levantamento aponta vantagem.
A urna não conhece o salto alto. Conhece o voto.
INSTITUTOS PRECISAM PRESTAR CONTAS À SOCIEDADE

O desempenho das pesquisas em 2026 também abre espaço para uma discussão sobre metodologia, transparência e credibilidade. Institutos locais e nacionais precisam demonstrar como seus levantamentos são realizados, apresentar adequadamente as informações técnicas e permitir que a sociedade compreenda o alcance e as limitações de cada resultado.
Quando uma pesquisa se distancia significativamente do resultado oficial, é legítimo questionar os fatores que podem ter contribuído para a diferença. Isso não significa presumir fraude ou desonestidade. Significa exigir transparência, rigor metodológico e responsabilidade na comunicação dos dados.
Da mesma forma, quando um levantamento se aproxima do resultado, é necessário reconhecer o desempenho sem transformar um acerto em garantia de infalibilidade. O eleitor merece respeito. Não deve ser induzido a acreditar que uma eleição está decidida antes de votar, nem levado a tratar pesquisas como se fossem resultados oficiais.
A nota da AVECOM coloca em evidência o trabalho dos veículos tocantinenses e a importância de valorizar o mercado local. O próximo passo é fortalecer o debate sobre a qualidade da informação eleitoral, sem desqualificações generalizadas e sem transformar divergências metodológicas em acusações sem provas.
WANDERLEI BARBOSA: POPULARIDADE TAMBÉM EXIGE RESPONSABILIDADE

O governador Wanderlei Barbosa construiu uma trajetória política marcada por sucessivas vitórias eleitorais. Desde suas primeiras disputas por mandatos proporcionais até a passagem pela Câmara Municipal de Porto Nacional, a Assembleia Legislativa, vice-governadoria e o Governo do Estado, sua carreira foi acompanhada por uma presença política relevante no Tocantins.
Levantamentos divulgados anteriormente chegaram a registrar aprovação de 66,8% de sua gestão. Esse indicador ajuda a dimensionar a força política que o governador construiu, embora não deva ser confundido com uma aprovação superior a 70% sem a identificação de uma pesquisa específica que sustente esse percentual.
A trajetória eleitoral de Wanderlei, contudo, não elimina os desafios do encerramento de sua gestão. Pelo contrário: quanto maior a responsabilidade exercida por um agente público, maior a importância da transparência sobre os atos administrativos e a aplicação dos recursos públicos.
Nos meses finais do mandato, ele que foi eleito e reeleito, a prioridade precisa ser a conclusão responsável dos compromissos assumidos, a organização das contas e a entrega de uma administração devidamente documentada.
A popularidade pode fortalecer uma liderança política. Mas a prestação de contas é uma obrigação institucional que não depende de aprovação popular, resultado eleitoral ou posição ocupada no cenário político.
TCU, TCE E AS CONTAS DO GOVERNO

O Tribunal de Contas da União (TCU), o Tribunal de Contas do Estado do Tocantins (TCE-TO) e a Assembleia Legislativa exercem funções distintas no sistema de controle e fiscalização da administração pública.
Por isso, é necessário separar as competências de cada instituição. O TCU fiscaliza a aplicação de recursos federais sujeitos à sua jurisdição. O TCE-TO atua no controle externo das contas e da gestão pública estadual e municipal, conforme suas atribuições constitucionais e legais. Já a Assembleia Legislativa exerce a função de julgamento das contas do governador nos termos da Constituição e do ordenamento aplicável, considerando os pareceres e procedimentos pertinentes.
Wanderlei Barbosa precisa conduzir o encerramento de sua gestão com atenção à documentação dos atos administrativos, à regularidade das despesas, aos contratos, às transferências de recursos e às demais obrigações do Estado.
A existência de fiscalização não significa que haja irregularidade comprovada. Da mesma forma, a aprovação de contas anteriores não constitui garantia automática de aprovação de exercícios posteriores. Cada período de gestão deve ser examinado conforme seus próprios atos, documentos e resultados.
A reflexão do Observatório Político de O Paralelo 13 é direta: o governador não deve permitir que as movimentações políticas do segundo turno desviem a atenção das responsabilidades administrativas que permanecem sob sua condução.
O FIM DO MANDATO NÃO ENCERRA AS RESPONSABILIDADES
Em 31 de dezembro de 2026, termina o atual ciclo de governo. A partir daí, os integrantes da administração seguirão seus próprios caminhos, enquanto os órgãos de controle continuarão exercendo suas atribuições sobre os atos praticados durante a gestão, respeitados os prazos e procedimentos legais.
É natural que, no ambiente político, alianças mudem e antigos companheiros sigam projetos diferentes. Por isso, a administração pública não pode depender de relações pessoais ou da expectativa de que aliados permaneçam ao lado de um governante depois do mandato.
O que protege um gestor é a regularidade dos atos, a documentação adequada, a transparência e o cumprimento da lei. Não se trata de antecipar conclusões sobre contas ainda sujeitas a análise, muito menos de insinuar a prática de crimes sem provas. Trata-se de reconhecer que o encerramento de um governo exige responsabilidade até o último dia e que eventuais irregularidades devem ser apuradas pelas instituições competentes, com respeito ao devido processo legal.
A prioridade de Wanderlei Barbosa, nesta reta final, deve ser concluir sua gestão com responsabilidade administrativa, preservar a documentação pública e garantir que as contas sejam apresentadas de forma transparente, independentemente do resultado do segundo turno.
UMA REFLEXÃO PARA O DOMINGO

As eleições de 2026 deixam duas advertências importantes. A primeira é dirigida aos institutos de pesquisa, às empresas de comunicação, aos partidos e às campanhas: os números precisam ser tratados com rigor, e a divulgação de cenários eleitorais exige responsabilidade. A pesquisa pode orientar uma estratégia, mas não deve substituir a escuta do eleitor nem produzir a ilusão de uma vitória antecipada.
A segunda é dirigida ao governador e à sua equipe: a disputa eleitoral tem data para terminar, mas as responsabilidades administrativas não desaparecem com o fim do mandato. O encerramento de uma gestão exige atenção às contas, aos documentos e aos compromissos assumidos com a população.
Wanderlei Barbosa chega ao final de seu ciclo de governo com uma trajetória eleitoral expressiva e capital político construído ao longo dos anos. Justamente por isso, a conclusão da gestão merece cuidado especial.
O resultado do segundo turno definirá quem comandará o Tocantins a partir de 2027. Não definirá, entretanto, o dever de prestar contas de quem administrou o Estado até o último dia de 2026.
Aos institutos de pesquisa, fica a cobrança por transparência, metodologia e respeito ao eleitor.
Ao governador e aos seus auxiliares, fica o lembrete de que a responsabilidade pública não termina com a última reunião, a última inauguração ou a última fotografia de governo.
Na política, a pesquisa não é urna. A popularidade não é salvo-conduto. E o fim do mandato não é o fim da prestação de contas.