Agenda externa se sobrepõe e atrapalha planos do petista para avançar em entregas para a eleição
Por Clarissa Oliveira
Superado o susto inicial provocado pelo ataque dos Estados Unidos à Venezuela e a captura de Nicolás Maduro, o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) começa a dar como consolidado um diagnóstico difícil de digerir: a crise no país vizinho carrega consigo um risco real de impactar na corrida deste ano pelo Palácio do Planalto.
Na prática, a crise implodiu tudo o que o governo Lula planejava para a largada do ano eleitoral. A ideia era abrir 2026 com a agenda voltada às entregas da gestão, muitas delas ainda dependentes de aval no Congresso Nacional.
Depois de um fim de ano turbulento na relação com o Legislativo, o Planalto queria se dedicar a restabelecer pontes. E, quem sabe, destravar medidas estratégicas que ainda seguem penduradas, como a PEC da Segurança Pública e o PL Antifacção.
O novo cenário geopolítico altera totalmente o eixo das discussões. Caem na lista de prioridades as entregas eleitorais de Lula, a agenda econômica, a comunicação da pré-campanha. Entram no foco a agenda externa, o risco de a crise venezuelana extrapolar a fronteira e o temor quanto aos próximos passos do governo Trump.
A relação entre Lula e Trump, em especial, é uma peça delicada nessa equação. O presidente brasileiro encerrou o ano passado celebrando o elo estabelecido com os Estados, em decorrência das negociações do tarifaço.
Neste momento, Lula tenta se equilibrar entre um discurso que condene firmemente o ataque à Venezuela, sem que isso abale profundamente a relação com Trump.
A saída, até agora, tem sido focar o discurso presidencial no respeito ao Direito internacional, na soberania da América Latina e na defesa da pacificação, sem em momento algum voltar as críticas diretamente a Trump. E, também, sem nem sequer citar o nome de Maduro.
Mas o fato de Lula evitar qualquer menção a Maduro não muda o fato de que seus adversários irão explorar à exaustão a vinculação de sua imagem ao ditador venezuelano. Foi exatamente o que se viu nas redes sociais nos últimos dias, com o senador e pré-candidato ao Planalto Flávio Bolsonaro puxando o coro.
Um desafio de Lula, neste momento, é evitar que o bolsonarismo reative seus canais junto ao governo Trump na esteira da crise na Venezuela. Caso contrário, aumenta o risco de que o presidente dos Estados Unidos possa até mesmo se posicionar publicamente em relação à eleição brasileira, na esperança de aumentar a influência da direita na região.