Por Edson Rodrigues
Existe um tipo muito comum de parlamentar em Brasília. É aquele que conhece profundamente o funcionamento da Câmara, domina o Regimento, apresenta projetos, relata matérias, participa das votações e cumpre, com eficiência, aquilo que se espera de um deputado federal.
Ricardo Ayres faz tudo isso.
Aliás, faz com números difíceis de ignorar. É o deputado federal tocantinense que mais relatou projetos de lei desde a criação do Estado. Uma marca que dificilmente será superada tão ce e que revela confiança técnica, capacidade de diálogo e reconhecimento entre os próprios colegas. Soma-se a isso uma produção legislativa intensa, centenas de proposições apresentadas e, disparado, o mandato mais produtivo da bancada do Tocantins.
Mas essa talvez seja a parte menos interessante da história.
O curioso em Ricardo Ayres é que ele parece não acreditar que existam assuntos que não sejam da sua conta.
É como se tivesse uma incapacidade quase crônica de ouvir a frase: “isso não é competência de um deputado federal”.
Se o problema é uma rodovia, ele entra.
Se é um hospital, também.
Se envolve universidade, ciência, inovação, meio ambiente, cultura, infraestrutura, esporte ou desenvolvimento econômico, dificilmente ficará apenas assistindo.
Foi assim quando decidiu transformar a federalização de rodovias e a recuperação das BRs do Tocantins em uma pauta permanente junto ao Governo Federal.
Foi assim quando assumiu a defesa da implantação do Hospital Universitário da UFT. Não se limitou a pedir recursos. Foi até São Paulo buscar uma cooperação técnica com a USP para ajudar a construir um modelo capaz de tirar o projeto do papel.
Foi assim quando resolveu disputar para o Tocantins um investimento de R$ 100 milhões do Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico para a implantação de um parque tecnológico em parceria com a Unitins.
Dessa vez, não conseguiu.
O recurso ficou com outro projeto.
E talvez esse seja justamente o detalhe interessante.
Ricardo Ayres também perde.

Nem toda reunião termina com assinatura de convênio. Nem toda articulação vira obra. Mas é difícil lembrar de outro deputado tocantinense disposto a disputar um investimento dessa dimensão para um Estado que sequer costumava entrar nesse tipo de conversa.
Foi assim quando passou a defender grandes projetos logísticos para o Estado. Hidrovias, Ferrovia Norte Sul, corredores de exportação, plataformas multimodais e infraestrutura deixaram de ser temas restritos aos ministérios e passaram a fazer parte da agenda de um deputado tocantinense.
Também foi assim ao entrar nas discussões sobre o Pedral do Lourenço. Em vez de acompanhar o assunto de longe, percorreu ministérios, buscou diálogo com o Ibama, com a Funai e outros órgãos federais para tentar destravar licenças e superar entraves que impedem o avanço de uma obra considerada estratégica para o Norte do país.
Na saúde, a atuação também extrapola a rotina parlamentar.
Há uma sequência de articulações junto ao Governo Federal que resultou em novas UBS, CAPS, ambulâncias, centenas de kits de telemedicina, equipamentos de alta complexidade, tomógrafo para o Hospital Geral de Palmas, estrutura cirúrgica para o HGP e para o Hospital Regional de Araguaína, além da construção do novo Hospital da Mulher e Maternidade de Araguaatins.
Não são iniciativas que se resolvem apenas com a destinação de emendas parlamentares. Exigem negociação, reuniões técnicas, persistência e uma capacidade quase infinita de voltar ao mesmo assunto até que alguém resolva dizer “sim”.
Hoje virou quase uma obrigação política discursar contra os impactos das apostas esportivas.
Ricardo Ayres começou essa discussão quando o tema ainda despertava pouco interesse. Apresentou projetos, cobrou fiscalização, pediu a proibição da publicidade dos jogos, alertou para os riscos da manipulação de resultados, do avanço do vício em jogos e da influência das apostas sobre o futebol brasileiro muito antes de o assunto ocupar diariamente os noticiários.
Há quem veja nisso excesso de protagonismo.
Há quem diga que ele gosta de entrar em debates que não lhe dizem respeito.
Há colegas que brincam, mas com fundo de verdade, dizendo que Ricardo Ayres é incapaz de passar por uma porta entreaberta sem colocar a cabeça para saber o que está acontecendo.
Talvez tenham razão.
Porque, quando alguém afirma que determinado assunto pertence a outro ministério, outro órgão ou outra esfera de governo, sua reação costuma ser perguntar onde fica o gabinete.
Quando depende do Ibama, ele vai ao Ibama.
Quando depende da Funai, ele procura a Funai.
Quando depende da USP, pega um avião para São Paulo.
Quando depende de um ministro, tenta convencer o ministro, chegando a “acampar” na porta dos gabinetes.
Nos bastidores, existe até uma história que ajuda a explicar esse jeito de agir.
Em 2023, durante uma viagem de férias à Itália, Ricardo Ayres iniciou tratativas para conseguir uma audiência com o então Papa Francisco. O objetivo era compartilhar suas preocupações em relação aos direitos dos povos indígenas brasileiros.
Para fortalecer o pedido, conseguiu uma carta assinada por Dom Pedro Brito Guimarães, arcebispo de Palmas, referendando a solicitação encaminhada ao Vaticano.
A audiência acabou não acontecendo.
O estado de saúde do Papa Francisco levou ao cancelamento de compromissos e inviabilizou o encontro.
Mas, convenhamos.
Se alguém imaginava que Ricardo Ayres iria até Roma sem ao menos tentar uma audiência com o Papa, provavelmente ainda não tinha entendido como ele funciona.
É um comportamento que, às vezes, beira a teimosia.
Em outras, a inconveniência.
Mas existe uma coincidência curiosa.
Boa parte das grandes pautas que hoje movimentam o Tocantins passou, em algum momento, por esse caminho.
Algumas deram certo.
Outras continuam esperando.
E algumas, simplesmente, não aconteceram.
Talvez esse seja o preço de quem prefere disputar projetos improváveis em vez de escolher apenas batalhas fáceis.
Em Brasília existe uma regra silenciosa: cada um cuida do seu pedaço.
Deputado cuida de leis.
Ministro cuida de ministério.
Reitor cuida de universidade.
Governador cuida de obra.
Ricardo Ayres nunca pareceu muito interessado em respeitar essa divisão.
Talvez por isso seja visto, às vezes, como exagerado, insistente, até um pouco intrometido.
Mas também talvez seja por isso que, quando aparece uma grande discussão envolvendo o Tocantins, dificilmente alguém estranha ao encontrá-lo sentado à mesa.
Mesmo quando ninguém lembrou de convidá-lo.
E, pensando bem, talvez existam coisas que realmente não precisem de convite.