Procurador e delegada que trabalham com crimes digitais explicam que o zoosadismo é comum em redes online de violência extrema frequentadas por jovens
Por Renata Cafardo e José Maria Tomazela ´- Estadão
* Alerta: a reportagem abaixo trata de temas sensíveis. Se você está passando por problemas, veja ao final do texto onde buscar ajuda.
A morte do cão Orelha, em Florianópolis, pode ser efeito de uma violência extrema estimulada pela radicalização online. Especialistas que trabalham diretamente em núcleos de crime digital explicam que a morte ou tortura de animais é comum em comunidades na internet frequentadas por crianças e adolescentes. O termo usado é o zoosadismo, ou seja, quando se tem prazer em ver ou praticar crueldade com animais.
Orelha foi encontrado agonizando no dia 4 e, levado para uma clínica veterinária, um laudo apontou a necessidade de eutanásia. Além da crueldade, o caso teve grande repercussão porque quatro adolescentes são apontados como agressores. A defesa de dois deles diz que “não há vídeo ou imagens que comprovem o momento do suposto ato de maus-tratos”. A reportagem tenta contato com a defesa dos demais.
A Polícia Civil de Santa Catarina diz que ainda não há evidências de influência de comunidades virtuais de ódio, mas especialistas apontam indícios de abordagem parecida com a de adolescentes que integram essas redes.
“É como se estivesse no Titanic, um quarteto de cordas seguindo solenemente rumo ao iceberg, sem se dar conta. A ponta do iceberg é o Orelha, mas é só a ponta”, diz o procurador e coordenador do Núcleo de Prevenção à Violência Extrema (Nupve), do Ministério Público do Rio Grande do Sul, Fábio Costa Pereira. “O zoosadismo é um grande marcador da mobilização à violência, e tem coisas muito mais graves.”
Para o procurador, que trabalha há dois anos com prevenção à violência online, é preciso alertar os pais de que a morte deste cão pode não ser fato isolado.
Nesta semana, também houve a morte de outro cachorro, o Abacate, em Toledo (PR). A Polícia Civil do Paraná diz que é possível afirmar que o animal foi morto de forma intencional, mas ainda não se sabe a motivação.
“É importante que isso sirva de alerta, porque junto do zoosadismo há várias outras coisas acontecendo. Há muitas crianças e adolescentes sendo instigadas ao suicídio. Há crianças sendo vítimas de abuso por seus irmãos, pedofilia, como sextorsão (ameaça de divulgação de imagens intimas), sessões de automutilação.”
Pereira explica que a radicalização pode ocorrer principalmente por causa do excesso de exposição a conteúdos nocivos em redes sociais e games, que levam a uma dessensibilização para violência nos adolescentes.
Muitos são recrutados em redes sociais ou jogos e acabam integrando comunidades de ódio, como a que ficou conhecida como COM/764. Segundo um relatório do grupo Stop Hate Brasil, a COM/764 “não opera como organização formal com hierarquia definida, mas em um conjunto amorfo de subgrupos, células e subculturas online nocivas” em plataformas, fóruns e aplicativos digitais.
Ela é focada numa radicalização violenta e colaborativa, com incentivo e instruções de práticas criminosas, como abuso sexual infantil, estupros virtuais e ainda violência extrema contra animais.
Muitas vezes, os participantes são desafiados - ou mesmo ameaçados por meio de extorsão - a cometer atos violentos ou mesmo pagos em moedas virtuais de jogos.
São crianças e adolescentes que “compartilham visões de mundo de desesperança ou centradas na glorificação da violência, no colapso social deliberado, no ódio niilista e na misantropia”, diz o relatório da pesquisadora Michele Prado, que também faz parte do núcleo do MP do Rio Grande do Sul.
Assim como ocorre nos ataques a escolas, que tiveram origem semelhante, os participantes desses grupos buscam notoriedade. “Se a violência é uma moeda social, a notoriedade é aquilo que os transforma em alguém muito maior nesta e em várias comunidades”, diz o procurador. “Isso gera competição interna para saber qual mais o perverso, qual é o pior, e faz com que um ato violento seja estimulado por outro ato violento.”
Segundo a delegada Lisandrea Salvariego Colabuono, do Núcleo de Operações e Articulações Digitais (Noad) da Polícia Civil de São Paulo, entre 8 e 10 animais, principalmente filhotes, são mortos toda noite com requintes de crueldade por membros dessas redes. Plateias online, com até 600 pessoas, assistem ao ritual.
Para ela, o zoosadismo faz parte de um processo de dessensibilização que depois é transferido para pessoas. “Depois eles passam a induzir meninas à automutilação e ao suicídio”, diz.
No caso do cão Orelha, ela acredita que os adolescentes supostamente envolvidos aplicaram na prática o que podem ter visto ou realizado no meio virtual. “É muito difícil não ter essa influência, pois tudo o que acessam online, esses vídeos curtos de brain rot, todos buscam a dessensibilização (redução da sensibilidade emocional).”
Há quase dois anos à frente do Noad, a delegada Lisandrea é conhecida pela forte atuação contra crimes virtuais praticados contra crianças e adolescentes. A equipe monitora as redes sociais inclusive de madrugada e, ao constatar o abuso em andamento, entra em contato com os pais ou vai até o local. Nesse período, o núcleo salvou 358 crianças e adolescentes de indução ao suicídio. “Se computar gatinhos e cãozinhos, esse número passa de 2 mil. Alguém tem que fazer alguma coisa, porque é um problema geracional.”
O núcleo no Ministério Público do Rio Grande do Sul também identifica precocemente sinais de radicalização, capacita profissionais da segurança pública, educadores, pais e promove intervenções para evitar a mobilização à violência. Para o procurador, além da regulamentação de redes e conscientização da sociedade sobre o que ocorre com essa geração, as famílias precisam estar mais presentes e controlar o excesso de telas. “Essa desconexão da família expõe os filhos a perigos e ameaças concretos no mundo virtual e tem consequências reais. Família tem de ser família, tem de controlar, sim.”
Segundo a delegada, a crueldade contra animais muitas vezes é praticada ao vivo, no quarto do adolescente ou na ausência dos pais. “Fazem no call (chamada) do Discord. Usam filhotes porque oferecem menos resistência. Tem passarinho, porquinho-da-índia, mas a maioria são cães e gatos filhotes.” A reportagem entrou em contato com o Discord e aguarda retorno.
Leis recentes agravaram as penas para os crimes de maus-tratos a animais, que agora são punidos até com reclusão, mas os adolescentes respondem apenas por ato infracional, que tem como punição máxima a internação em estabelecimento socioeducativo, como a Fundação Casa, por até 3 anos.
Pais ou responsáveis podem ser punidos se for comprovado que houve participação ou omissão. “Para punir os pais, é preciso deixar muito claro que eles tiveram participação, o que é difícil e depende do trâmite do inquérito policial. O que a gente percebe é que a violência contra animais vem piorando e escalando. É uma prática que temos visto nas redes há pelo menos um ano e meio.”
Onde buscar ajuda
Se você está passando por sofrimento psíquico ou conhece alguém nessa situação, veja abaixo onde encontrar ajuda:
Centro de Valorização da Vida (CVV)
Se estiver precisando de ajuda imediata, entre em contato com o Centro de Valorização da Vida (CVV), serviço gratuito de apoio emocional que disponibiliza atendimento 24 horas por dia. O contato pode ser feito por e-mail, pelo chat no site ou pelo telefone 188.
SUS
Os Centros de Atenção Psicossocial (Caps) são unidades do Sistema Único de Saúde (SUS) voltadas para o atendimento de pacientes com transtornos mentais. Há unidades específicas para crianças e adolescentes. Na cidade de São Paulo, são 33 Caps Infantojuventis e é possível buscar os endereços das unidades nesta página.