SUCESSÃO ESTADUAL: UMA COLCHA DE RETALHOS EM CONSTANTE COSTURA

Posted On Segunda, 27 Abril 2026 03:52
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Por Edson Rodrigues e Edivaldo Rodrigues

 

 

O processo sucessório no Tocantins para 2026 está longe de ser simples, previsível ou linear. Em alguns momentos, parece um tabuleiro de xadrez; em outros, um verdadeiro labirinto político. Mas, na essência, o que se desenha é uma grande colcha de retalhos, formada por diferentes forças, interesses, estratégias e projetos de poder, costurada por dezenas de mãos, cada uma defendendo seu espaço em um cenário fragmentado.

 

Com quase três dezenas de partidos registrados no país, o sistema político brasileiro amplia a complexidade das disputas estaduais. No Tocantins, isso se reflete diretamente na multiplicidade de candidaturas, alianças voláteis e movimentos que mudam de direção em questão de dias. Some-se a isso um eleitorado expressivo e um índice de abstenção ainda relevante, e o resultado é um ambiente onde nada está consolidado.

 

 

 

A antecipação do processo eleitoral expôs pré-candidatos com quase dois anos de antecedência. O que deveria ser articulação de bastidor virou campanha aberta. O desgaste veio cedo e nomes perderam força antes mesmo do período oficial, rejeições cresceram e o eleitor passou a observar com mais cautela e até desconfiança o comportamento dos atores políticos.

 

Hoje, o que se chama de “pré-campanha” já funciona como campanha em curso. Governistas e oposicionistas percorrem o estado, firmam compromissos, fazem promessas e tentam plantar no imaginário popular a expectativa de dias melhores. Mas o eleitor, mais atento, parece disposto a esperar. A tendência é que muitos só devem formar opinião após as convenções, debates e exposições mais concretas de propostas.

 

A CHAPA ORIGINAL: DORINHA, GOMES E GAGUIM

 

 

 

No campo governista, a chamada “chapa original” ganhou corpo e visibilidade. A senadora Professora Dorinha Seabra desponta como pré-candidata ao governo, acompanhada do senador Eduardo Gomes, que busca a reeleição, e do deputado federal Carlos Gaguim, também na disputa por uma vaga ao Senado.

 

Esse grupo nasce de um pacto político articulado em Brasília, com respaldo das cúpulas nacionais partidárias e influência direta no processo que garantiu o retorno do governador Wanderlei Barbosa ao cargo, após um período de afastamento que gerou incertezas no cenário estadual.

 

O recente encontro em Barra do Ouro simbolizou a tentativa de consolidar essa unidade. Dorinha, Gomes e Gaguim apareceram juntos, em clima de alinhamento e construção coletiva, um gesto que busca transmitir estabilidade e organização em meio ao cenário fragmentado.

 

Eduardo Gomes, em especial, segue como um dos nomes mais fortes da disputa. Mesmo liderando pesquisas, mantém postura cautelosa, sem demonstrar soberba, e intensifica agendas pelo interior. Com forte atuação municipalista, sendo responsável pela articulação de mais de R$3 bilhões em recursos para o Governo do Tocantins, os 139 municípios, dentre eles a capital, constrói uma base sólida e capilarizada.

 

WANDERLEI, REPUBLICANOS E O FATOR ELI BORGES

 

 

 

O governador Wanderlei Barbosa ocupa uma posição importante. Após retornar ao comando do Estado com respaldo jurídico e político, assumiu o compromisso de não disputar cargos em 2026. Ainda assim, segue como peça-chave na articulação do processo sucessório.

 

O Republicanos, seu partido, cobra protagonismo na chapa majoritária. É nesse contexto que surge o nome do deputado federal Pastor Eli Borges como pré-candidato ao Senado.

 

Apesar da trajetória consolidada e do apoio declarado do governador Wanderlei Barbosa, a pré-candidatura de Eli Borges ao Senado ainda não conseguiu ganhar tração no cenário político estadual. Falta-lhe, até o momento, o elemento central de qualquer projeto majoritário competitivo que é uma base política estruturada nos municípios. A ausência de apoio consistente de prefeitos, vereadores e lideranças locais da própria base governista evidencia um isolamento.

 

No mercado político, a leitura predominante entre imprensa, cientistas políticos e observadores do processo sucessório é de que a candidatura permanece estagnada, sem avanço significativo nas articulações ou na consolidação de apoios. Diante desse quadro, cresce a avaliação de que ainda haveria tempo para uma reavaliação estratégica de seu projeto eleitoral. Permanecer na disputa ao Senado, enfrentando adversários já estruturados e com maior capilaridade, representa um risco elevado. Em política, insistir sem base pode significar mais do que uma derrota, mas a perda de protagonismo futuro.

 

OPOSIÇÃO

 

 

 

No campo da oposição, nomes como Laurez Moreira, Irajá Abreu, Cinthia Ribeiro, Kátia Abreu e Mauro Carlesse se movimentam, mas ainda sem unidade consolidada. Sem unidade, esse capital político corre sério risco de se diluir. Não se trata apenas de nomes, mas de estrutura e lastro eleitoral. O campo de oposição carrega um ativo relevante que é a presença e o impacto dos programas sociais do presidente Lula através do governo federal no Tocantins, que alcançam centenas de milhares de famílias e deixam marcas concretas em diversas regiões do estado. São investimentos em habitação popular, infraestrutura, energia rural, rodovias e políticas voltadas à agricultura familiar, que ajudam a consolidar uma base social significativa.

 

Se esse patrimônio político for bem trabalhado, especialmente com a participação do Partido dos Trabalhadores e sua conexão direta com o governo do presidente Lula, há espaço para a construção de um bloco competitivo. Nomes como Irajá Abreu e Laurez Moreira podem funcionar como eixo dessa articulação, desde que consigam dialogar com partidos de centro-esquerda e esquerda em torno de um projeto comum.

 

Isoladamente, no entanto, esse campo tende a enfrentar dificuldades. Além de reduzir chances na disputa majoritária, a fragmentação compromete o desempenho proporcional, com risco real de não eleger representantes com força no Congresso. Por outro lado, uma composição articulada, com divisão de espaços e estratégia conjunta, pode reposicionar esse grupo na disputa, inclusive com competitividade para alcançar uma das vagas em eventual segundo turno. O cenário, portanto, é de oportunidade, mas também de risco. Tudo dependerá da capacidade de articulação e, sobretudo, da disposição para construir unidade.

 

MAURO CARLESSE: O “PAPA VOTOS” EM MOVIMENTO

 

 

 

O ex-governador Mauro Carlesse volta ao cenário com intensidade. Percorrendo regiões como Araguaína e o Bico do Papagaio, tem se reunido com prefeitos, vereadores e lideranças locais, ampliando sua presença e reorganizando sua base política. Sua movimentação é planejada, consistente e acompanhada por uma equipe profissional, com forte domínio da comunicação política e bom relacionamento com a mídia local, fatores que tendem a favorecer sua inserção nas redações e ampliar sua visibilidade daqui para frente.

 

Esse conjunto de ações começa a preocupar adversários, inclusive dentro do próprio campo político. Nos bastidores, já há a percepção de que o movimento de Carlesse ganha densidade e visibilidade, em alguns momentos se mostrando mais robusto do que o de seu próprio parceiro de chapa, o senador Irajá Abreu. Com articulação ativa, presença regional e estratégia de comunicação bem definida, Carlesse se reposiciona na disputa, como também passa a tensionar o equilíbrio interno desse grupo.

 

Carlesse surge, assim, como uma candidatura estruturada, em crescimento e com potencial de surpreender. Seu histórico eleitoral, somado à capacidade de mobilização e à leitura estratégica do cenário, o recoloca no centro do debate político tocantinense e mais do que um nome surge como um personagem que pode redesenhar forças dentro da própria oposição.

 

VICENTINHO JÚNIOR: CONSISTÊNCIA E ARTICULAÇÃO

 

 

 

O deputado federal Vicentinho Júnior também se firma como uma alternativa consistente. Com apoio de lideranças experientes, como o presidente da Assembleia Legislativa, Amélio Cayres, e o deputado Alexandre Guimarães, constrói uma candidatura baseada em articulação política e forte presença territorial.

 

Nos últimos dias, Vicentinho intensificou sua agenda e demonstrou capacidade de mobilização. Neste final de semana, percorreu a região norte, com passagens por Colinas e Araguaína, seguiu para Gurupi no sábado e, no domingo, cumpre agenda no sul do estado. Na segunda-feira, retorna a Palmas para reuniões, mantendo o ritmo de viagens e articulações enquanto prepara o grande ato político marcado para o dia 15 de maio, em Porto Nacional, onde deve oficializar sua pré-candidatura.

 

Um dos diferenciais de seu grupo está justamente na estratégia de atuação simultânea. Enquanto Vicentinho cumpre agenda em diferentes regiões, lideranças que o acompanham também avançam em outras frentes. No Bico do Papagaio e no norte do estado, o presidente da Assembleia Amélio Cayres e o deputado federal Alexandre Guimarães intensificam reuniões com lideranças locais, além de participarem de entregas de obras e maquinários viabilizados por meio de emendas impositivas.

 

Essa divisão de atuação tem gerado resultados positivos. O grupo consegue marcar presença em várias regiões ao mesmo tempo, ampliando capilaridade, fortalecendo alianças e consolidando uma base política mais distribuída. Trata-se de uma estratégia que, além de dar visibilidade, prepara o terreno para um embate eleitoral mais competitivo.

 

Com presença constante nos municípios, discurso alinhado e estrutura em movimento, Vicentinho Júnior vai, aos poucos, deixando de ser apenas uma alternativa para se colocar como um nome efetivo na disputa pelo governo do Tocantins.

 

PALMAS: O CENTRO DAS DECISÕES

 

 

 

Nenhuma análise sobre 2026 pode ignorar o peso de Palmas. Maior colégio eleitoral do estado, com mais de 200 mil eleitores, a capital é o principal termômetro político do Tocantins. Mais do que volume de votos, Palmas concentra visibilidade, imprensa, instituições e o debate público. É onde as candidaturas são testadas, onde as narrativas ganham força e onde a opinião pública exerce maior pressão.

 

O histórico recente reforça esse protagonismo, afinal foi o único município do estado a ter segundo turno nas eleições de 2024. Em 2026, seu papel tende a ser ainda mais decisivo tanto para levar a disputa ao segundo turno quanto para definir o resultado final.

 

GESTÃO EDUARDO SIQUEIRA

 

 

 

A gestão do prefeito Eduardo Siqueira Campos entra no radar eleitoral como fator determinante. Alvo de pressões políticas e jurídicas, enfrenta uma oposição que tenta, a todo custo, desgastar sua imagem e frear iniciativas que vêm sendo apresentadas como respostas a problemas históricos da capital. Um dos exemplos mais evidentes é a tentativa de interrupção da parceria da Prefeitura com a Santa Casa de Misericórdia na gestão das UPAs, movimento que, na leitura de aliados, teve claro viés político.

 

Os números, no entanto, indicam outro cenário. Em apenas oito dias de operação do novo modelo, as unidades ultrapassaram a marca de 10 mil atendimentos, com média superior a 1,2 mil pacientes por dia, ampliando a capacidade de resposta na saúde pública e absorvendo demandas que antes sobrecarregavam o sistema. Para a gestão, trata-se de um indicativo de que o projeto começou a dar resultados concretos, enfrentando um problema crônico que se arrasta há anos em Palmas.

 

A tentativa de barrar essa iniciativa, portanto, é interpretada nos bastidores como uma reação ao potencial impacto positivo na popularidade do prefeito. Eduardo, por sua vez, aposta na reversão das decisões judiciais e na continuidade do projeto, convicto de que a parceria será mantida e ampliada.

 

Outro ponto que chama atenção é o silêncio de lideranças políticas, inclusive de nomes com mandato e presença no Congresso, que até agora não se manifestaram publicamente em defesa da gestão ou do modelo adotado na saúde. Essa ausência de posicionamento pode ter reflexos no campo político, especialmente na relação do prefeito com sua base e com o grupo que orbita a sucessão estadual.

 

Paralelamente, a gestão avança com forte capacidade de investimento. Com o fim do período chuvoso, a expectativa é de que Palmas se transforme em um grande canteiro de obras, com impactos diretos na infraestrutura, educação, saúde e políticas sociais. Esse conjunto de ações tende a elevar significativamente a popularidade do prefeito, reposicionando seu papel no tabuleiro político estadual.

 

Nos bastidores, a leitura é de que o desempenho da gestão Eduardo Siqueira pode influenciar diretamente o rumo das eleições de 2026, não apenas pelo peso eleitoral de Palmas, mas pelo efeito político que sua aprovação pode gerar sobre alianças, apoios e estratégias daqui para frente.

 

TOCANTINS: UM CENÁRIO EM ABERTO

 

 

 

O que se pode afirmar, neste momento, é que nenhuma candidatura está consolidada. A colcha de retalhos segue em construção e ainda longe do acabamento final. Até as convenções, o jogo será de resistência, estrutura e estratégia. Quem não tiver base sólida, recursos, equipe qualificada e comunicação eficiente corre o risco de não chegar competitivo.

 

Após as convenções, o cenário muda. As regras se tornam mais rígidas, os limites mais perceptíveis e os erros mais custosos. Em eleições cada vez mais judicializadas, um passo fora das “quatro linhas” pode significar a perda de tudo, inclusive de uma vitória nas urnas.

 

Outro fator que preocupa é o nível do debate político. Crescem as reclamações de eleitores, empresários e profissionais sobre o excesso de ataques, denúncias e agressões nas redes sociais. Grande parte do eleitorado permanece indeciso e prefere aguardar o início oficial da campanha para formar opinião.

 

A eleição de 2026 no Tocantins será decidida nos detalhes. Cada movimento, cada aliança e cada erro terão peso determinante. Palmas deve ser o centro dessa decisão, o colégio eleitoral capaz de influenciar diretamente a existência de segundo turno e, no limite, definir quem governará o estado.

 

A colcha de retalhos continua sendo costurada, dia após dia. E, como toda obra complexa, seu resultado ainda é imprevisível. No Tocantins de hoje, mais do que nunca, o jogo está aberto.

 

 

OS NÚMEROS QUE EXPLICAM A FORÇA DE EDUARDO SIQUEIRA

 

A eleição municipal de 2024 em Palmas confirmou o peso da capital no cenário político estadual, bem como também evidenciou a força eleitoral e a capilaridade do prefeito Eduardo Siqueira Campos.

 

Com 209.524 eleitores aptos, Palmas foi o único município do Tocantins a registrar segundo turno, consolidando-se como o principal colégio eleitoral e o verdadeiro termômetro das disputas políticas no estado. O comparecimento de 74,27% revela um eleitorado participativo, ainda que a abstenção de 25,73%, equivalente a mais de 50 mil eleitores, indique um contingente expressivo que segue como alvo estratégico para futuras campanhas.

 

A vitória de Eduardo não pode ser analisada apenas pelo resultado final, mas pela construção política que a sustentou. Sua candidatura demonstrou capilaridade urbana, presença nos bairros, diálogo com diferentes segmentos sociais e capacidade de enfrentar uma disputa em dois turnos, algo que exige estrutura, resistência e articulação. Além disso, Palmas concentra não apenas votos, mas visibilidade, mídia, instituições e influência política, fatores que ampliam o peso de qualquer liderança que consiga se consolidar na capital.

 

 

 

No contexto de 2026, esses números ganham ainda mais relevância. O desempenho eleitoral em Palmas será decisivo. A capital tem potencial para definir a ida ao segundo turno e, em muitos cenários, influenciar diretamente quem ocupará o Palácio Araguaia.

 

Além de concentrar o maior colégio eleitoral, Palmas conta  também com grande parte dos veículos da comunicação política do estado, que é onde estão as sedes das TVs, das principais rádios e dos veículos de comunicação que irradiam informação para todo o Tocantins, além de ser o centro dos grandes debates eleitorais nas redes de televisão.

 

Em resumo, quem não estiver competitivo em Palmas dificilmente será competitivo no Tocantins.

 

 

Última modificação em Segunda, 27 Abril 2026 04:31
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