Era uma vez um tempo em Porto Nacional — ainda parte do norte de Goiás, hoje coração do Tocantins — em que não havia televisão, telefone ou internet. Mesmo sem esses instrumentos modernos de comunicação, a cidade já vivia na vanguarda da educação, da saúde e da política. De Porto nasceu um núcleo de resistência contra as arbitrariedades da época e de luta pela criação do Estado do Tocantins
Por Carlos Braga*
As crianças cresciam em harmonia com a natureza. As brincadeiras seguiam o ritmo das estações: havia o tempo da enfinca, do conto, do pião, da “salva latinha”, da “beira poço”... E assim a infância fluía, especialmente para aqueles nascidos entre as décadas de 1960, 70, 80 e início dos anos 90.
O principal meio de comunicação era o rádio, que captava as estações do Rio de Janeiro. Por isso, muitos se tornaram torcedores dos times cariocas. Com pouca influência externa, os valores, a educação e os princípios eram moldados sob forte influência dos dominicanos e sob as bênçãos do inesquecível padre Luso.
Somente 28 anos após a chegada da televisão ao Brasil, o sinal chegou a Porto Nacional — e ainda assim, de forma improvisada. Os programas eram retransmitidos a partir de fitas gravadas com semanas de atraso. Quando estudantes voltavam de Goiânia, tornavam-se o centro das atenções: as meninas se reuniam em torno deles, ansiosas para saber o que havia acontecido com a mocinha da novela das oito.
O tempo passou. Aquela geração que aprendeu datilografia, que se comunicava por cartas e eternizava momentos com câmeras Kodak, vive agora na era digital, em que tudo é instantâneo e as informações chegam em avalanche. Ainda assim, essa geração — que conheceu o passado analógico — absorveu com maestria o novo mundo digital. É uma geração única, com um pé na história e outro no futuro. Viveu o tempo da escassez de informação e agora transita na era da abundância.
Antes, o capital era o dinheiro. Hoje, o conhecimento é o novo capital. Contudo, mesmo com a promessa de democratização da informação, o saber está cada vez mais centralizado nas mãos de grandes corporações — Google, Apple, Facebook, Amazon e Microsoft (as chamadas GAFAM). A coleta de dados pessoais e o controle do fluxo informacional tornaram-se estratégias lucrativas que, muitas vezes, limitam o verdadeiro acesso ao conhecimento.
Essa geração, moldada por princípios sólidos na infância e juventude, não pode se deixar seduzir por bolhas de desinformação. Não podemos abandonar nossos valores em nome de narrativas rasas e repetitivas das redes sociais. É hora de olhar para si mesmo, reconhecer os próprios fundamentos e resistir às armadilhas do senso comum digital.
Devemos nos reconectar com nossas raízes, fincar os pés nos princípios que nos formaram e lutar para que a informação seja verdadeiramente democrática e acessível. Afinal, essa geração privilegiada, que viveu duas eras, tem o dever e a capacidade de vencer mais essa batalha.
*Carlos Braga, é engenheiro civil e líder político em Porto Nacional.