Por Eduardo Katah e Pedro Venceslau
O senador Tasso Jereissati (CE) admitiu em entrevista ao Estadão que pode formar uma frente com o governador do Rio Grande do Sul, Eduardo Leite, e com o ex-prefeito de Manaus Arthur Virgílio para enfrentar o governador de São Paulo, João Doria, nas prévias presidenciais do PSDB marcadas para 21 de novembro. Expresidente do partido, Tasso reconheceu que o paulista é o favorito na disputa interna.
De volta ao Senado de forma presencial, o tucano, que já tomou as duas doses da vacina contra a covid, também avaliou o cenário econômico como "péssimo sob todos os aspectos" e disse que a elite financeira e empresarial do País "demorou muito" para reagir ao presidente Jair Bolsonaro. "Estamos vivendo a tempestade mais que perfeita. É lastimável, mas tudo isso poderia ter sido evitado", declarou.
João Doria disse no programa Roda Viva que o sr. havia desistido das prévias do PSDB. Depois disso, Eduardo Leite afirmou que o sr. e ele estarão juntos na eleição interna. O sr. fechou uma aliança com Leite?
Soube com um certo espanto e, em um primeiro momento, sem acreditar que o governador Doria afirmou que eu tinha desistido. Fiquei realmente surpreso. Nunca disse isso para ninguém ou conversei com o próprio Doria. Tenho uma afinidade muito grande com o governador do Rio Grande do Sul, Eduardo Leite, e com o Arthur Virgílio, do Amazonas. Estamos fazendo um esforço muito grande para termos uma candidatura só nas prévias que possa competir com o Doria. Evidentemente que Doria, como governador de São Paulo, onde o partido é maior, leva vantagem. Ele polariza dentro do partido. Para haver uma competição justa no PSDB, fazer alianças é importante. A probabilidade de uma aliança com Eduardo Leite e Arthur é grande. Estamos avaliando qual será a melhor alternativa, sem nenhum tipo de projeto pessoal, qual dessas candidaturas pode agregar mais os outros partidos de centro.
Então no ato da inscrição das prévias é provável que seja apresentado apenas um nome?
É possível.
O sr. não está viajando e fazendo uma campanha ostensiva nas prévias. Sua candidatura é para valer ou está marcando posição?
Minha posição ajuda a fazer esse trabalho de agregar. Meu nome está colocado de uma maneira descontraída, sem que isso seja um projeto pessoal.
Por que o sr. decidiu encontrar o ex-presidente Lula?
Porque todos os homens de bom senso deste país que entendem um pouco de história sabem que o ódio e o radicalismo não levam a coisa alguma. Se não tivermos a capacidade de dialogar com todas as correntes de pensamento, da esquerda à direita, da região Sul ao Norte, vamos ficar parados vendo essa decadência. O diálogo é fundamental. Não é a primeira vez que encontro com o Lula. Dialogar não significa ser cooptado ou cooptar. Somos muito diferentes em relação ao PT, mas queremos ter as portas abertas para dialogar.
A ideia é abrir diálogo com o PT para o partido estar junto com o PSDB na eventualidade de um segundo turno contra o presidente Jair Bolsonaro?
Não necessariamente para o segundo turno, mas para governar. Se nós ganharmos as eleições, vamos precisar ter um diálogo com o PT. Não é bom para o Brasil viver em um clima de confronto. Pelo que conversamos, o presidente Lula está consciente disso.
A terceira via tenta consolidar um nome. Ela está disputando uma vaga no segundo turno contra Bolsonaro ou Lula?
Se você me fizesse essa pergunta há quatro ou cinco meses, eu diria que nós iríamos disputar com um dos dois. Mas, pelo cenário de hoje, estaremos disputando o segundo lugar com Bolsonaro. Mas tem muita água para rolar. O Lula está muito preservado. Todos os canhões estão virados para o Bolsonaro. Na campanha os canhões vão se voltar para o favorito. As coisas mudam. Nosso objetivo é fragmentar o menos possível a candidatura de centro.
Na votação na Câmara sobre o voto impresso, 14 deputados do PSDB apoiaram a proposta, o que contrariou a orientação da Executiva do partido. O que isso significa?
Lamento muito. Não é a cara do PSDB, que nasceu com uma inspiração democrática e social. Critico de forma veemente o voto impresso e o fundão eleitoral.
Que leitura o sr. faz desse recente confronto entre o governador João Doria e o deputado Aécio Neves?
Lamento. Já fiz essa autocrítica quando fui presidente interino do PSDB. Está na hora de sairmos desse mundo de xingamentos e ofensas. O momento é de baixar a bola e reconciliação. Chega de ódio.
Qual é o significado da adesão do deputado Rodrigo Maia ao projeto do Doria para 2022?
Respeito muito o Rodrigo Maia, mas não vejo nenhuma sinalização política relevante.
Como é a sua relação com Ciro Gomes? Se ele estiver mais bem posicionado em 2022, pode ser o nome do centro?
A minha relação com ele é a melhor possível. Não é de hoje que admiro Ciro. Ele se distanciou um pouco dos potenciais aliados. Ciro é um homem de centro, não de esquerda.
Como essa crise institucional afeta a economia do País?
Infelizmente, estamos enfrentando de uma maneira desnecessária um cenário péssimo sob todos os aspectos. Temos a inflação subindo e começando a sair do controle, 14 milhões de desempregados, uma crise fiscal, a pandemia ainda em evolução e uma crise institucional inédita desde a redemocratização. O presidente da República está alienado dos problemas. Entrou em atrito com o Supremo, que é uma instituição vigorosa, e agora com o Senado. Essa crise institucional que vem da Presidência da República é a gota d'água que está causando um pessimismo gigantesco na economia. E ainda o próprio ministro da Economia dando declarações desastrosas. Estamos vivendo a tempestade mais que perfeita. É lastimável, mas tudo isso poderia ter sido evitado.
Como o sr. avalia as manifestações do 7 de Setembro?
Vou tentar ser otimista. Criou-se uma expectativa enorme ao redor destas manifestações do dia 7 de setembro, mas as declarações do cantor Sergio Reis, que alarmaram o País e foram rejeitadas pela sociedade de uma maneira veemente, podem ter furado um balão que estava crescendo. Aquilo que o cantor falou não era uma bravata, mas a rejeição da sociedade pode ter furado o balão. Tenho a esperança de que pode ser muito menor do que o presidente alardeia.
Como está o debate no Senado em torno da indicação do André Mendonça para o Supremo Tribunal Federal?
Se o presidente da República mandou a indicação do nome dele para o Senado, tem que votar. Simplesmente ficar segurando não é a melhor conduta. Se (o Senado) não gosta e não quer, então vota e rejeita.
Esse cenário político conturbado pode ter reflexo na votação para a aprovação dele?
Claro que pode. Sem dúvida nenhuma. Apesar de ele ter algumas simpatias, à medida que o presidente exacerba suas posições, isso pode prejudicá-lo.
Essa exacerbação do presidente é reflexo do enfraquecimento do capital eleitoral ou só a falta de rumo do governo?
Essa tática de confronto vem desde o início do governo. O primeiro confronto que ele abriu foi com a classe política. Isso gerou uma incompatibilidade com o Parlamento que paralisou o governo. Ele foi de confronto em confronto. Vira uma coisa meio paranoica.
A sociedade reagiu com um manifesto amplo e contundente que reuniu intelectuais, banqueiros, políticos e economistas contra as ameaças de Bolsonaro às eleições. A elite empresarial e financeira do Brasil demorou a se posicionar contra o governo?
Muito. Desde as eleições, essa chamada elite, com honrosas exceções, dentro de um clima anti-Lula, fez qualquer coisa que fosse contra o PT. E essa qualquer coisa foi sem nenhum tipo de qualificação ou mérito. Quem tinha um pouco de noção previu que isso ia acontecer. Até hoje há movimentos que, em nome do antipetismo, levam o País ao caos em um terreno de ameaça às eleições.
As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.
O presidente do PSD tenta conquistar governos estaduais para a sigla, aposta na terceira via e diz ser triste um país onde poucos levam a sério o presidente, diz ele em um entrevista a revista
Com Revista veja
Um experiente parlamentar costuma brincar que, em meio a uma confusão generalizada provocada por uma catástrofe nuclear, procuraria Gilberto Kassab para saber o que fazer. Atual presidente do PSD, ele já ocupou cargos como o de prefeito de São Paulo e de ministro de Dilma Rousseff e Michel Temer. Não perdeu o prestígio de “oráculo” político mesmo depois de ter sido atingido por suspeitas de corrupção (responde no momento a um processo por corrupção passiva, lavagem de dinheiro, caixa dois eleitoral e associação criminosa, denúncias negadas por ele). Respeitado pela sua habilidade nos bastidores, prepara uma mudança de patamar do seu PSD: a sigla deve ter candidatos próprios e bastante competitivos em alguns dos maiores colégios eleitorais do país, e flerta com o presidente do Senado, Rodrigo Pacheco, hoje no DEM, para uma inédita candidatura presidencial. Segundo Kassab, há espaço para um nome de centro romper a polarização entre Lula e Bolsonaro. Nos últimos tempos, aliás, tem subido o tom das críticas ao capitão e enxerga nele sinais preocupantes de quem deseja um golpe.
Políticos da esquerda à direita costumam se referir ao senhor como “oráculo”. Previa lá atrás que o governo atual teria tantos problemas?
Estou acostumado a conviver com resultados que não corresponderam à expectativa. Hoje, mais do que nunca, estou convencido de que a vitória do Geraldo Alckmin teria sido melhor para o Brasil em 2018. A eleição de Bolsonaro não foi boa para o país. Essa é a razão de eu estar entre aqueles que procuram hoje alternativas. Vejo com muita preocupação a continuidade de um governo que tem uma série de problemas e que em nada tem ajudado.
O senhor se surpreendeu com o comportamento de Bolsonaro no governo?
Eu tinha certeza de que ele teria dificuldades para ser presidente. Convivi com Bolsonaro como deputado federal em dois mandatos e não enxerguei qualidades que o credenciassem a ser presidente. Ser candidato e ganhar as eleições não é tudo. Aprendi que o importante não é apenas ganhar as eleições. Se é para ganhar com um projeto ruim, é melhor perder, porque isso vai trazer um desgaste talvez irreversível à sua carreira, e do ponto de vista de políticas públicas a um município, um estado, um país, o resultado será também muito danoso.
Na mais recente crise entre o presidente e o STF, Bolsonaro pediu o impeachment do ministro Alexandre de Moraes. O que achou desse gesto?
Bolsonaro errou. A tensão no país está sendo criada pelo presidente, e não pelo STF, que tem se manifestado adequadamente. Felizmente, o presidente do Senado rejeitou esse pedido de impeachment. É um absurdo vindo do presidente, porque ele sabe que quem está acirrando os ânimos, provocando tensão, é ele, procurando, intencionalmente ou não, gerar confusão no processo eleitoral. Isso é lastimável para alguém que foi eleito democraticamente por esse sistema de votos. Convivi com a época da apuração em cédulas de papel. Aquele sistema, sim, possibilitava fraudes.
Teme que o presidente tente alguma ruptura democrática caso seja derrotado em 2022?
Tenho uma forte percepção de que ele pensa no assunto, sim, e dá sinais de que deseja o golpe. Ele verbaliza isso. É muito preocupante. Um presidente da República, quando sinaliza um golpe, pode estar brincando ou falando sério. Se estiver brincando com isso, é um irresponsável. Se estiver falando sério, pior ainda. Diante das suas manifestações mais recentes, temos de estar preparados para tudo. Acho que o Supremo e o Tribunal Superior Eleitoral estão se preparando para que ele não tenha sucesso, caso não seja uma brincadeira. O Congresso vai se preparar e eu, pessoalmente, também.
Depois do desfile com tanques de guerra em Brasília, o bolsonarismo está se mobilizando para fazer manifestações barulhentas em 7 de setembro. O senhor teme tumultos?
Espero que sejam atos democráticos, que são sempre bem-vindos. Sobre aquele desfile militar, foi uma piada. Fez muito barulho nos dias que antecederam, provocou polêmica e depois virou galhofa pela maneira como foi feito. É triste, mas imagino que talvez daqui a alguns meses as pessoas vão parar de dar importância a Bolsonaro.
O impeachment já foi mais possível do que é hoje?
Tenho muitas críticas ao governo, mas sempre descartei o impeachment. Não vejo até agora nenhum motivo para isso na conduta do presidente. Ele tem dado opiniões, mas não deu passo concreto em direção a um golpe. Se em algum momento as opiniões virarem ações, o Congresso precisa ser célere e defenderei a ideia de que meu partido apoie o impeachment. O partido nunca fechou questão, mas, quando Bolsonaro ultrapassar essa linha, dentro do partido vou defender o afastamento.
A CPI da Pandemia pode favorecer um clima para o impeachment?
Tem de ter algo concreto, não se pode banalizar o impeachment. Os erros dele na pandemia foram desastrosos, promovendo aglomerações, a demora na compra das vacinas… Tudo isso causou um desgaste de imagem, mas não sei se justifica o impeachment. Justifica, sim, punições, ações do Ministério Público… Se ele avançar mais alguns passos no sentido de trabalhar por um golpe, a Câmara tem o dever de abrir o processo de impeachment.
Além de Bolsonaro, já há outros candidatos em campanha para 2022. O que deve influenciar mais o voto do eleitor no ano que vem?
A vontade de mudar. Hoje, apenas aproximadamente 25% dos brasileiros querem continuar com este governo. A cada semana, a cada mês, está havendo queda na sua popularidade. Há uma aspiração por uma mudança tranquila. O brasileiro não aguenta mais enfrentamento, acirramento de ânimos.
Por que o centro ainda não tem um candidato competitivo?
O eleitor vai escolher isso no momento certo, na pré-campanha vai sinalizar o seu apoio. No Brasil existe a tradição do voto útil, que acontece com muita frequência. Acredito que acontecerá de novo. Aposto em uma proposta nova, conciliadora.
O senhor tem defendido a candidatura do presidente do Senado, Rodrigo Pacheco, mas nomes como Ciro Gomes não indicam que abrirão mão da disputa presidencial. Esse número de candidatos correndo na mesma faixa não pode sufocar a terceira via?
É da democracia os partidos terem candidatos. Respeitamos as candidaturas colocadas, não acho que estejamos caminhando para um número excessivo de candidatos. O PSD se preparou para ter seu próprio nome, que é o presidente do Senado, Rodrigo Pacheco. Ele tem mais chance de conseguir recolher o voto daqueles que rejeitam os dois extremos.
Pacheco é visto como político conciliador, mas ainda muito desconhecido. Há tempo para fazer dele um candidato competitivo até 2022?
As razões das pessoas para rejeitarem o atual governo é constatarem que está à frente dele uma pessoa sem experiência de gestão, que não estava preparada para ser presidente. É quase uma aventura esse governo, o brasileiro não quer mais isso. Rodrigo Pacheco é um advogado bem-sucedido, bem preparado, com trajetória parlamentar admirável. Não se pode ficar impressionado com pesquisa no momento. Se ele aceitar o convite, muito possivelmente será o candidato que melhor representará a união nacional, o candidato dessa mudança tranquila.
Pré-candidato do PSDB à Presidência, o governador João Doria procura também ocupar esse espaço. Como avalia as chances dele?
Ele tem muita exposição e todos sabem que ele é candidato. Mesmo assim, tem dificuldades. É difícil o governador chegar aos 25% para ir para o segundo turno. As pesquisas também mostram que sua avaliação não é boa.
O senhor descarta apoio do PSD a outro candidato de centro, caso Pacheco não se filie, ou até mesmo uma aliança com Lula?
O PSD só tem seus planos A, B e C, que são: Rodrigo Pacheco candidato a presidente.
Em que medida a volta de Lula à disputa eleitoral e os movimentos dele ao centro podem reduzir o campo da terceira via?
A candidatura do Lula atinge mais a do Ciro Gomes, que tem muitas qualidades, mas o Lula dificulta a ida do Ciro para a esquerda, onde o ex-presidente tem mais força.
Acredita ainda numa candidatura do ex-juiz Sergio Moro?
Ele pode ser um bom candidato ou um bom apoiador. Moro tem um legado, sinaliza aos brasileiros um dos principais agentes públicos no combate à corrupção, com bastante êxito, e também com erros. O problema dele foi aceitar ser ministro de um governo em que muitas pessoas não acreditavam. Isso trouxe complicações à sua carreira, mas ele tem legitimidade para aspirar ao cargo.
Na disputa aos governos estaduais em 2022, seu partido quer lançar candidaturas próprias em estados importantes. Em São Paulo, vai mesmo tirar Geraldo Alckmin do PSDB para enfrentar os tucanos como cabeça de chapa do PSD do estado?
Acho que Alckmin tem vários motivos para se filiar ao PSD, um partido que está arrumado e tem várias lideranças. Ele foi quatro vezes governador, sempre muito bem avaliado. É uma candidatura segura. Só depende dele agora.
O senhor costuma negar que o PSD seja parte do chamado Centrão. O que os diferencia?
O PSD é de centro e não temos nenhum problema de convivência com o Centrão. Como qualquer sigla de centro, o PSD tem preocupação extremada com a saúde pública, com o ensino público, a ciência e as políticas sociais. E isso não é incompatível com algumas políticas públicas que pregam os liberais no campo da economia, como fortalecimento da iniciativa privada. A opinião pública não sabe o que pensam os partidos do Centrão.
O senhor disputou pela última vez uma eleição em 2014, ao Senado, e não foi eleito. Não tem mais aspiração a cargos majoritários?
Estava me preparando para ser candidato a senador, entendo que há circunstâncias favoráveis pela minha relação com prefeitos, com a sociedade, as realizações em São Paulo, o conhecimento e a experiência. Mas as circunstâncias de fortalecimento do PSD, um projeto que eu assumi o compromisso de coordenar, me levaram a deixar de lado a ideia. Penso no futuro em voltar a disputar eleições, mas não em 2022.
Veja
Bom humor e final dramático marcam gravação do ex-presidente com a apresentadora Patrícia Calderón em Fortaleza
Por Jeff Benício
Patrícia Calderón é daquelas jornalistas que não desistem nunca até ficar frente a frente com quem deseja entrevistar, por mais ‘inatingível’ que seja o personagem. Por isso, já conseguiu 3 exclusivas com Lula. As duas primeiras quando o petista ocupava a Presidência da República.
A recente conversa foi gravada na segunda-feira (23) e vai ao ar na íntegra às 8h00 no sábado (28), no ‘Jornal da Manhã’ da Jovem Pan News de Fortaleza. Trechos estão sendo exibidos na programação jornalística da TV Cidade, afiliada da Record TV no Ceará.
“Ele chegou de bom humor, sorridente, me disse estar apaixonado pela namorada (a socióloga Rosângela Silva, a Janja)”, contou Calderón ao blog. “Afirmou ter redobrado os cuidados com a saúde na prisão. Tinha medo de morrer lá. Falou nunca ter pensado em suicídio, mas chorou algumas vezes no cárcere.”
Foram meses de negociação por e-mail e ao telefone com a assessoria de Lula. A apresentadora paulista radicada no Ceará conseguiu o que o ‘The New York Times’ tentou sem sucesso. Comentou-se nos bastidores da gravação que o jornal mais influente do planeta pediu para acompanhar o líder esquerdista pela turnê nordestina e não foi autorizado.
Sagaz, Calderón esticou o bate-papo por 50 minutos, o dobro da duração combinada. “Certa hora, a presidente do PT, Gleisi Hoffmann, surgiu na minha frente e disse, com cara de brava, que era preciso encerrar. Por sorte, eu tinha feito todas as perguntas”, relata Patrícia.
A presença de Lula provocou burburinho entre os hóspedes do Gran Marquise, hotel 5 estrelas diante da praia de Mucuripe, zona nobre da capital cearense.
Descontraído após tomar farto café da manhã, o ex-presidente só mostrou irritação ao falar do atual ocupante do Palácio do Planalto. “O Bolsonaro foi uma criatura feita pela imprensa brasileira. A Rede Globo e a revista ‘Veja’ produziram Bolsonaro. Pariram (Sergio) Moro e Moro é um dos responsáveis por parir Bolsonaro.”

Gravação de quase 1 hora foi acompanhada por assessores e seguranças de Lula
Patrícia Calderón o questionou a respeito das polêmicas diárias lançadas pelo presidente. “Por que ele não gosta de dar entrevista para a imprensa? Por que ele gosta de ele ser o distribuidor de notícia? Por que ele fala as bobagens que quer. Ofende todo mundo. Ele não gosta de nordestino, de negro, de mulher, de LGBT, de sindicato, de trabalhador rural, ele não gosta de preservação ambiental. Ele quer ser diferente. Essa é a vida desse cidadão.”
Ao final da gravação, um momento dramático na sala do hotel transformada em estúdio de TV: o fotógrafo Ricardo Stuckert, que acompanha Lula em todos os eventos, recebeu a notícia de que seu pai havia sofrido um infarto. Ele saiu chorando do local. Houve comoção geral na equipe.
Pouco depois, a notícia da morte de Roberto Stuckert estava nas manchetes dos portais. Foi um importante fotógrafo com passagens por grandes redações, como as da revista ‘Manchete’ e do ‘Jornal do Brasil’. Tinha 78 anos. “Nosso querido Stuckinha precisou se despedir do seu pai, Stuckão. Roberto Stuckert nos deixa um legado imenso. Artístico e histórico”, registrou o perfil de Lula no Twitter.
Decano do Supremo Tribunal Federal (STF) se aposenta nesta segunda-feira (12), após 31 anos na Corte
Com CNN
Em entrevista exclusiva à CNN, o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Marco Aurélio Mello, que se aposenta da corte na segunda-feira (12), disse que ainda em 2017, antes da eleição que levou Jair Bolsonaro (sem partido) à Presidência da República, já temia por uma vitória do então deputado federal, que segundo ele poderia ocorrer na esteira da ascensão de líderes populistas de direita em outras democracias.
Segundo o magistrado, em seminário da Universidade de Coimbra, em Portugal, ele disse "claramente, com todas as letras, em bom vernáculo, em bom português, que temia pelo Brasil a eleição como presidente da República do deputado federal Jair Bolsonaro, que fizera a vida política dele batendo em minorias". "Premonição? Não, uma certa experiência de vida", disse Marco Aurélio.
Apesar das críticas ao presidente, Marco Aurélio se colocou contra o impeachment de Bolsonaro, destacando que o chefe do Executivo "foi eleito, foi diplomado, é titular de um mandato".
"Precisamos respeitar, como falei, as regras do jogo. Não é bom para o Brasil ter-se o afastamento de um dirigente maior do país. A repercussão interna é ruim em termos de insegurança, e a repercussão internacional, então, horrorosa", argumentou.
Para Marco Aurélio, Bolsonaro terá de prestar contas ao eleitor em 2022, caso se candidate à reeleição. "Que o digam os eleitores em 2022, mas que até lá se observe realmente a diplomação dele, presidente Jair Bolsonaro".
Sem arrependimentos
Na segunda-feira, Marco Aurélio encerrará um período de 31 anos como membro do Supremo Tribunal Federal, corte que presidiu entre 2001 e 2003 - papel que, segundo ele, é de ser "algodão entre os cristais" -, e onde protagonizou embates públicos com colegas, seja por meio da imprensa, nas turmas ou no plenário da Corte.
O magistrado também tomou decisões de grande repercussão, como quando concedeu liminares que beneficiaram suspeitos e condenados como Suzane von Richtofen e André do Rap. Contudo, Marco Aurélio disse à CNN que se aposenta sem qualquer arrependimento.
"Não me arrependo de qualquer ato praticado no ofício de julgar. Sempre busquei servir aos semelhantes, aos jurisdicionais, com pureza d'alma", afirmou. "Não se pode criticar um juiz por ter cumprido a lei".
Questionado sobre as pressões políticas e da opinião pública que podem pesar sobre os integrantes do STF, Marco Aurélio defendeu o Supremo, referindo-se à Corte como "última trincheira da cidadania". Segundo ele, "não dá para simplesmente sinalizarmos que não é um tribunal confiável, é um tribunal confiável, sim".
"Com erros e acertos, eu tenho que admitir, já que a justiça é obra do homem, que há desacertos, mas os desacertos são em número muito menor do que os acertos", pontuou.
Marco Aurélio também ressaltou a importância do respeito à Constituição e às outras leis por parte dos membros do Supremo, e defendeu que os ministros precisam se manter distanciados dos interesses diversos, especialmente da opinião pública. "Se nós formos querer atender à turba, considerado o tráfico de drogas, considerada a delinquência de toda ordem, considerada a corrupção, nós evidentemente vamos partir para o justiçamento, e numa democracia não cabe justiçamento".
Sergio Moro
O decano do STF disse que o ex-juiz e ex-ministro da Justiça e da Segurança Pública do governo Bolsonaro Sergio Moro é merecedor de sua deferência e de seu respeito, embora Moro tenha "virado as costas à cadeira de juiz". Para Marco Aurélio, ao deixar a magistratura e embarcar no governo federal, Moro cometeu "um ato falho", mas ainda assim merece ser respeitado.
"Ele tinha planos quanto à segurança pública no Brasil. Infelizmente, teve um descompasso com o dirigente maior do país e não pôde realizar esses planos", afirmou.
O ex-presidente da Câmara flerta com o PT e defende a ideia de que os partidos de centro rompam definitivamente com o governo Bolsonaro
DA REVISTA VEJA
Derrotado na tentativa de eleger seu sucessor para a presidência da Câmara dos Deputados e, de quebra, expulso do partido ao qual foi filiado por vinte anos, o DEM (que preferiu votar no candidato do governo, Arthur Lira), o deputado Rodrigo Maia, 51 anos, explica que deu um passo atrás nas suas pretensões políticas, com a intenção de avançar várias casas no futuro. Atrelado a dois objetivos — escolher uma sigla para se abrigar e perder os quilos que acumulou no comando da Câmara (chegou a 117, desfez-se de 5 e tem mais 20 a derreter) —, Maia se reposiciona no jogo político, ciente de que o desgaste da saída do DEM inviabilizou sua aspiração de ser o candidato do “centro liberal” à Presidência no ano que vem. Nesta entrevista a VEJA, que concedeu no apartamento do pai, Cesar Maia, no Rio de Janeiro, o deputado defende a ideia de que os partidos de centro rompam definitivamente com o governo Bolsonaro e flerta com o apoio a Lula em 2022.
O senhor esteve recentemente com o ex-presidente Lula. Alguma chance de apoiá-lo em 2022?
Posso ajudar, sim. Foi um bom encontro, com a presença do prefeito do Rio, o Eduardo Paes. Disse ao Lula que tenho grande interesse em conversar com ele sobre o Brasil. Acumulei experiência e conto com pessoas no meu entorno que também podem cooperar. Eu me aproximei da esquerda já durante o segundo mandato de Dilma Rousseff, para dar força à pauta econômica. Depois da queda do Eduardo Cunha, o PT me apoiou para conquistar a presidência da Câmara.
Então há chances de o senhor ir de Lula nas próximas eleições?
Algumas pessoas que foram ao almoço disseram que Lula gostou do papo, mas não acho que isso vá se desdobrar em uma aliança. Agora, esse tipo de aproximação é um aceno necessário nos tempos atuais: todos no campo democrático devem conversar. O Lula está praticamente no segundo turno, é favorito em 2022 e nós, do centro liberal, não podemos ficar de fora, precisamos tratar do futuro do país. As instituições provaram resiliência contra o autoritarismo do governo Bolsonaro, mas podem vir a se enfraquecer na hipótese de um segundo mandato.
Se o PT chamá-lo para aprofundar a conversa, o senhor vai?
Claro que eu vou. Acho que consigo coordenar um grupo de pessoas qualificadas. Pode ser no PSD, no PSDB ou até contribuindo com o pessoal do PT.
Nos bastidores, comenta-se que Eduardo Paes tende a fechar com Lula, mesmo havendo um candidato de centro. Procede?
O Eduardo tem uma relação muito próxima com o ex-presidente. O elo dos dois é tão forte que a probabilidade de apoio dele ao Lula ainda no primeiro turno não é pequena, caso o PSD, seu partido, não lance candidatura própria.
Como o centro vai conseguir ganhar espaço em um cenário tão polarizado entre Lula e Bolsonaro?
Primeiro, combatendo a tese de que é preciso oferecer uma candidatura alternativa às de Lula e Bolsonaro. Pesquisas recentes mostram que Lula tem lugar garantido. Já Bolsonaro, gira em torno de 23% das intenções de voto porque não surgiu ninguém com mais de 10%. O candidato para derrotar o petismo deve ser um nome capaz de tirar votos do presidente. E eles se concentram na extrema direita, em uma parte do segmento evangélico e no eleitor de classe média ressentido com a falta de perspectiva. A verdade é que Bolsonaro encolheu.
Qual seria esse nome ao centro capaz de subtrair votos do presidente?
Em um cenário em que Doria tem 5%, Mandetta, 3%, e Eduardo Leite, 2%, não se vê favorito. Precisamos reconstruir um partido ou um bloco que represente o centro liberal, espaço que estava vazio e foi ocupado por Bolsonaro em 2018. Seu DNA estatizante e reacionário, porém, não condiz com esse posicionamento. O que precisamos é juntar lideranças, inclusive jovens parlamentares, em torno de um projeto único. Caso lance três ou quatro candidatos, nosso campo corre sério risco de ficar fora do páreo. Foi o que aconteceu recentemente nas eleições do Peru, com o centro dividindo o eleitorado e morrendo na praia.
O senhor prega união, mas não há nesse espectro muito cacique para pouco voto?
Todo mundo acha que a construção de uma candidatura deve favorecer a si próprio. Vaidade sempre será um problema. Antes de tudo, precisamos reconhecer que é impossível chegar ao segundo turno sem São Paulo — não dá para excluir o governador João Doria do processo. Se daqui a seis meses Doria tiver recuperado a popularidade, é ele o candidato. Mas, dentro desse campo, outros devem participar, como Tasso Jereissati, Eduardo Leite, Rodrigo Pacheco e Luiz Henrique Mandetta.
O senhor incluiria Ciro Gomes nesse balaio?
A grande aliança para derrotar Lula e Bolsonaro passa, a meu ver, por um acordo entre PSDB e PDT. Só que, para isso, o Ciro precisa abrir mão de muita coisa que andou dizendo por aí, e também nós teremos de ceder para chegar a um ponto de equilíbrio. O discurso do centro está bonito, a carta conjunta assinada pelos pré-candidatos foi um passo importante, mas nada disso gerou certeza de união. Um fator que certamente atrapalha é a turma que se diz independente e insiste em apoiar o governo.
Em que medida isso é um freio de mão ao projeto de uma nova via?
Esse é o grande gargalo. Não haverá candidatura de centro em 2022 se os deputados continuarem a priorizar sua reeleição e a embarcar no bolsonarismo em troca de cargos e liberação de verbas — ou mesmo em nome de uma agenda liberal, que não existe.
A saída de Luciano Huck da corrida foi um baque?
Estive na casa dele há um mês, com o Paulo Hartung (ex-governador do Espírito Santo) e o Mandetta. Ali já estava claro que não seria candidato. Luciano tinha potencial para crescer no Nordeste e no voto popular, mas Lula ocupou esse lugar. E ainda havia à mesa a saída do Faustão da Globo, que abriu a janela profissional que ele sempre buscou. Seria um bom nome, mas é a segunda vez que deixa a gente na mão. Sabe o que está nos faltando? Alguém que faça o papel de aglutinador.
E quem seria?
O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso é o nome ideal, do tipo “pode confiar”, mas infelizmente não dá sinais de que vá participar do processo na medida em que gostaríamos.
Se o palanque ficar polarizado, uma banda do centro vai de Bolsonaro. E o senhor?
Conheço a experiência dos governos do PT e do Bolsonaro, com seus defeitos e acertos. Não tenho dúvidas de que estamos vivendo um chavismo de direita. Piora o quadro ter no tabuleiro um filho como o Flávio (Bolsonaro), que nomeia gente para todas as instâncias de poder, até para o Supremo. Isso eu não posso aceitar.
Como avalia a CPI da Pandemia?
É um tiro no coração do Bolsonaro. O escândalo das vacinas desmonta o discurso de que não há corrupção no governo. Mas é bom lembrar que um impeachment é movido por muitas variáveis, sendo a política a principal delas. E a relação do governo com sua base é boa. Pode ter certeza de que o Centrão não vai debandar só porque a avaliação do Bolsonaro anda baixa.
Foi por não enxergar um ambiente político favorável que o senhor não pautou nenhum dos pedidos de impeachment contra Bolsonaro quando presidia a Câmara?
Exato. Não tinha voto para ganhar e cairia no primeiro recurso. Se do ponto de vista político não há espaço para o encaminhamento de um pedido desses, não tem por que avaliar seu mérito. Na verdade, o poder do presidente da Câmara em relação a um impeachment é tão ilimitado que isso acaba dificultando as coisas. Qualquer conversa nessa direção soa como vingança pessoal. Cunha abriu o processo contra Dilma apenas porque três deputados do PT votaram contra ele no Conselho de Ética.
A expulsão do DEM deixou mágoas?
Foi uma violência, uma decisão que mostra claramente quão autoritária é a origem do ACM Neto, o presidente do partido. Ele está muito mais próximo do Bolsonaro do que eu considero razoável. Não dá para entender: como mantém na sigla um senador que foi pego com dinheiro na cueca (Chico Rodrigues-RR) e pune alguém como eu, só por criticá-lo, “o pequeno Torquemada”? Já tinha pedido a minha desfiliação e ele poderia ter me suspendido das atribuições partidárias, mas fez questão de me expulsar.
ACM Neto afirma que não o traiu na eleição para presidência da Câmara, mas que o senhor insistia na candidatura de Baleia Rossi (MDB-SP) quando a bancada queria apoiar o Arthur Lira (PP-AL).
É mentira. Ele mandava os deputados assinar a lista do Lira para dizer que não tínhamos maioria e assim liberar a votação da bancada. Mas não é tão esperto quanto imagina. Os deputados depois vêm contar tudo. Essa suposta esperteza é do tamanho da altura dele: 1,30 metro. Por inveja, implodiu um movimento que poderia impulsionar um projeto nacional nas próximas eleições. Fiquei vinte anos construindo algo que foi destruído em duas semanas.
O senhor vai mesmo para o PSD, como foi ventilado?
Ainda não bati o martelo, vou dar um tempinho para avaliar, mas é o mais provável. Meu grupo político, que inclui o Eduardo Paes, foi para lá.
Na eleição para o governo do Rio, é realista pensar em um nome que lidere uma frente anti-Bolsonaro?
Não será nada fácil. A disputa para esse posto está entre o preferido de Eduardo Paes, o presidente da OAB Felipe Santa Cruz, e o Marcelo Freixo (PSB), que faz hoje suas costuras. O Lula acena para ambos. Quando isso acontece, ele quer dizer: “Unam-se”.
Depois de ser um dos homens mais importantes da República, como se sente longe do poder?
Venho de uma família de políticos e já vi a roda-gigante em cima e embaixo. É da vida. Tenho de me reorganizar, mas estou tranquilo. O que tive a chance de aprender na presidência da Câmara me dá muitos ativos para seguir firme no jogo do poder.