Já entre petistas, a decisão fortaleceu o discurso de soberania nacional. Esse deve ser um dos principais motes de campanha do presidente Lula (PT), que buscará a reeleição em outubro.
POR CAROLINA LINHARES E CAIO SPECHOTO
A condenação do ex-deputado Eduardo Bolsonaro (PL-SP) pelo STF (Supremo Tribunal Federal) nesta terça-feira (16) foi classificada por bolsonaristas como uma injustiça e mais um sinal do que veem como perseguição da corte.
Já entre petistas, a decisão fortaleceu o discurso de soberania nacional. Esse deve ser um dos principais motes de campanha do presidente Lula (PT), que buscará a reeleição em outubro.
Eduardo foi condenado de forma unânime pela Primeira Turma do STF pelo crime de coação no curso do processo, sob acusação de ter articulado uma tentativa de intimidação dos Estados Unidos ao Judiciário brasileiro com o objetivo de impedir o julgamento da trama golpista –em que o pai dele, Jair Bolsonaro (PL), foi condenado.
O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), pré-candidato à Presidência da República e irmão de Eduardo, afirmou que o processo é nulo e uma grande injustiça e criticou o ministro Alexandre de Moraes –um dos alvos da Lei Magnitsky aplicada pelos EUA.
“Alexandre de Moraes deveria se declarar impedido, já que em tese é a vítima. […] Parece claramente uma vingança, uma questão pessoal. […] Não estamos vivendo democracia plena”, disse Flávio nas redes sociais.
O senador afirmou ainda que Eduardo não deveria ter sido julgado pelo STF, já que não é mais deputado federal e perdeu a prerrogativa de foro por função.
Coordenador da pré-campanha de Flávio, o líder do PL no Senado, Rogério Marinho (RN), afirmou que não é aceitável que o Judiciário adote critérios diferentes de acordo com o acusado.
“Durante a prisão de Lula, lideranças do PT recorreram a organismos internacionais e promoveram campanhas no exterior contra decisões da Justiça brasileira. À época, tais iniciativas foram tratadas como exercício legítimo da liberdade de expressão e da atuação política”, diz.
“Em uma democracia, é legítimo questionar decisões estatais e recorrer a instâncias internacionais para denunciar aquilo que se entende como abuso ou violação de direitos. O que não é legítimo é adotar critérios diferentes conforme a posição política de quem se manifesta”, completa.
O deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG) afirmou que há dois pesos e duas medidas. “Os parlamentares do PT buscaram apoio internacional contra o impeachment de Dilma [Rousseff] e nada foi feito. Dois pesos, duas medidas. Nossa Justiça é tudo, menos imparcial”, publicou.
Integrantes do partido de Lula aproveitaram a ocasião para chamar o filho de Bolsonaro de traidor da pátria. O grupo tenta colar esse rótulo em Flávio. “Cadeia para o traidor da pátria”, escreveu nas redes sociais o deputado Lindbergh Farias (PT-RJ).
“Grande dia! O traidor da pátria, o Calabar, o Silvério dos Reis do Eduardo Bolsonaro acaba de ser condenado exatamente por isso: trair o Brasil”, declarou o deputado Carlos Zarattini (PT-SP). “Muito bom STF, parabéns. Agora nós queremos que ele seja deportado para o Brasil e cumpra sua pena.”
O secretário de comunicação do PT, Éden Valadares, disse: “Sabe o que acontece com quem é cúmplice de golpe, trama contra a nossa soberania e tenta coagir a instituições brasileiras? 4 anos e 2 meses de prisão, inelegibilidade de 8 anos e perda do cargo público”.
Eduardo Bolsonaro teve seu mandato na Câmara dos Deputados cassado por decisão da maioria dos membros da Mesa Diretora da Câmara, presidida por Hugo Motta (Republicanos-PB), em dezembro. A decisão se deu por excesso de faltas às sessões da Casa no último ano.
A condenação de Eduardo ainda é passível de recurso no próprio STF.
A partir da publicação do acordão, a defesa pode entrar com embargos de declaração (que visa esclarecer alguma obscuridade na sentença).
Como Eduardo está nos EUA, o governo brasileiro pode pedir que ele seja incluído na lista de procurados da Interpol.
O ex-deputado fica inelegível e, nesse caso, não há necessidade de transitar em julgado porque a decisão foi de um órgão colegiado. O Supremo determinou a notificação imediata do TSE (Tribunal Superior Eleitoral).
Fala aconteceu durante reunião com a participação do norte-americano Donald Trump, cujo governo designou facções brasileiras como terroristas
Por Renato Machado
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) disse nesta terça-feira (16) que o combate ao crime organizado precisa respeitar a soberania dos Estados.
A declaração aconteceu durante umas das reuniões de trabalho do G7, em Évian-les-Bains, que contava com a presença do presidente norte-americano, Donald Trump.
O governo Trump designou recentemente o Comando Vermelho e o Primeiro Comando da Capital como organizações terroristas, abrindo espaço para intervenções econômicas contra o Brasil e, em um caso mais extremo, de uma ação militar.
"Outros temas, como o combate aos crimes transnacionais, também devem fazer parte da agenda de desenvolvimento. Um deles, é o desafio do crime organizado, que aterroriza comunidades e desvia recursos públicos que deveriam ser direcionados para a construção de escolas, hospitais e estradas. Esse esforço deve levar em conta do respeito à soberania dos Estados", afirmou.
"A Declaração de Líderes do G7 sobre o Combate ao Tráfico de Drogas é um passo positivo. Mas o enfrentamento ao narcotráfico não pode ser dissociado de outros ilícitos como a lavagem de dinheiro e o tráfico de armas. Valorizar o diálogo e a cooperação institucional, inclusive por meio da Interpol, contribuirá para a localização de ativos e indivíduos vinculados a essas atividades criminosas", completa.
Lula participa como convidado da cúpula dos sete países mais ricos do mundo, que acontece na França. A reunião com o discurso do presidente tinha como tema "novas parcerias e reconstrução da solidariedade internacional".
O encontro aconteceu logo após a chamada foto de família, que reúne todos os participantes do evento.
O mandatário brasileiro ainda enviou outros recados para Trump durante o seu discurso. Criticou por exemplo o protecionismo dos países e o unilateralismo no mundo.
"O neoliberalismo agravou a desigualdade econômica e a crise política que hoje assolam as democracias. Agora, o protecionismo e o unilateralismo ressurgem como respostas falaciosas para a complexidade dos nossos problemas.
Embora não tenha mencionado Trump, a fala soa como uma referência à guerra tarifária que o norte-americano vem levando adiante desde o primeiro ano de seu segundo mandato.
No mês passado, o Brasil foi alvo de duas novas tarifas. Uma delas relacionada à uma ampla investigação de práticas comerciais apontadas como desleais, que levou à possibilidade de aplicação de uma tarifa extra de 25%.
Além disso, o Brasil, outros 59 países e a União Europeia foram alvos de uma outra tarifa, de 12,5%, por importar produtos fruto de trabalho escravo.
Com Congresso em Foco
O vereador Cabo Deyvison (PL-RN), de Mossoró, foi baleado na noite desta segunda-feira (15) enquanto realizava uma transmissão ao vivo em frente à UPA do bairro Alto de São Manoel.
No ataque, o assessor e cinegrafista Alyson Dyego de Oliveira Morais, de 37 anos, também foi atingido. Ele chegou a ser socorrido, mas não resistiu aos ferimentos.
Cabo Deyvison foi baleado nas pernas, recebeu os primeiros atendimentos na unidade de saúde e, em seguida, foi transferido para o Hospital Regional Tarcísio Maia.
Em nota divulgada nas redes sociais, a equipe do parlamentar informou que seu estado de saúde é estável e lamentou a morte do assessor.
"Neste momento de dor e preocupação, pedimos orações pela recuperação de Cabo Deyvison e pela família da vítima."
O ataque ocorreu por volta das 22h e foi registrado pela própria transmissão ao vivo.
Investigação
A Polícia Civil do Rio Grande do Norte assumiu as investigações para identificar os autores e esclarecer a motivação do crime. O caso será apurado pela Delegacia de Homicídios e de Proteção à Pessoa (DHPP) de Mossoró.
Segundo a corporação, os disparos foram efetuados por ocupantes de um veículo que passou em frente à UPA enquanto o vereador realizava a transmissão ao vivo. Até a manhã desta terça-feira (16), não há informações sobre prisões ou identificação dos suspeitos.
De acordo com a imprensa local, o carro usado no atentado foi encontrado abandonado pouco depois do crime e passou por perícia. A polícia também deve analisar imagens de câmeras de segurança da região e os registros da live para auxiliar na identificação dos envolvidos.
Os investigadores apuram se o ataque tem relação com a atuação política de Cabo Deyvison, com denúncias publicadas por ele nas redes sociais ou com outras circunstâncias ainda não esclarecidas.
Atuação política
Eleito vereador em 2024, Cabo Deyvison exerce seu primeiro mandato na Câmara Municipal de Mossoró.
Ex-policial militar, ele ganhou projeção nas redes sociais por publicações sobre segurança pública e denúncias relacionadas à criminalidade no município.
Segunda proposta de colaboração premiada foi considerada insuficiente; decisão final sobre negociações caberá ao ministro André Mendonça
Com Folha de São Paulo
Daniel Vorcaro sofreu mais um revés na tentativa de negociar uma colaboração premiada com as autoridades. A Procuradoria-Geral da República decidiu rejeitar a segunda proposta de delação apresentada pelo banqueiro, reforçando o entendimento já adotado pela Polícia Federal de que o material não trouxe informações novas capazes de justificar um acordo.
Nos bastidores da investigação, a avaliação é que os relatos entregues pela defesa não apresentaram fatos inéditos nem vieram acompanhados de provas que permitissem avançar em novas linhas de apuração. Um dos pontos que pesaram contra a proposta foi a percepção de que Vorcaro concentrou esforços em explicar sua versão dos acontecimentos, sem fornecer elementos considerados relevantes para ampliar as investigações.
Agora, a palavra final sobre os próximos passos do caso está com o ministro do STF André Mendonça. A tendência é que a decisão leve em consideração a posição convergente da PF e da PGR, algo que o próprio magistrado já havia sinalizado considerar importante para o futuro das negociações.
Preso desde março no âmbito da Operação Compliance Zero, Vorcaro permanece em uma sala da Superintendência da Polícia Federal em Brasília enquanto tenta viabilizar um acordo de colaboração. Caso a delação seja definitivamente descartada, cresce a possibilidade de transferência para uma unidade prisional comum, encerrando o tratamento diferenciado concedido durante as tratativas.
Na reta final antes da campanha, presidente dispara anúncios e cobra entrega total dos ministros
Do portal R7
O governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva se prepara para promover até o fim de junho os últimos anúncios de grande porte focados em ações com apelo popular, enquanto se aproximam as restrições legais do período eleitoral, após forte aumento no volume de eventos neste semestre.
A agenda de Lula, que pretende buscar a reeleição em outubro, contou com mais de 100 compromissos relacionados a anúncios de medidas e investimentos, inaugurações, cerimônias comemorativas e visitas a obras e fábricas entre janeiro deste ano e esta semana, quase o dobro do observado em período equivalente de 2025.
Agora ministérios correm para fechar, antes de 4 de julho — quando a lei eleitoral passa a limitar ações do governo — uma etapa adicional do programa Desenrola para renegociações de dívidas por pessoas com as contas em dia.
“Nós vamos anunciar ainda até o fim do mês o Desenrola adimplantes, seja pelo Fies, para quem está adimplente no Fies, seja para a pessoa que hoje tem uma operação de crédito nos bancos, mas paga a operação de crédito e vai ganhar um reforço para seguir pagando, porque o valor que eu, de fato, prestigio aqui é o pagamento, é quem está pagando em dia”, afirmou o ministro da Fazenda, Dario Durigan, em entrevista na semana passada.
Em outro anúncio, na última sexta-feira (12), Lula apresentou uma linha de crédito com garantia da União para entregadores de aplicativos financiarem motocicletas com juros abaixo dos de mercado.
Em reunião ministerial na semana passada, o presidente cobrou seus ministros para que organizem todas as entregas possíveis até o início de julho e enfatizou que inaugurações de governo precisam passar pelo Palácio do Planalto.
“Temos até 3 de julho para fazer todas as entregas... Ninguém me apresente absolutamente nada novo. Agora, é entregar o que já foi pensado”, disse na ocasião.
Procurado, o Palácio do Planalto afirmou que o lançamento de políticas públicas envolve processos de maturação técnica e responde a necessidades do país em cada momento, ressaltando que as medidas anunciadas recentemente foram estruturadas ao longo dos últimos anos e não devem ser compreendidas como ações isoladas.
“Não há qualquer caráter eleitoral nas agendas oficiais. As agendas realizadas neste ano são plenamente compatíveis com as atribuições constitucionais do presidente”, disse o Planalto, em nota. “Desde o início desta gestão, o presidente tem percorrido todo o país para anunciar investimentos, realizar entregas e dialogar com estados e municípios.”
Defeso eleitoral
Nos três meses anteriores às eleições, período conhecido como defeso eleitoral, o governo fica proibido de promover inaugurações, realizar pronunciamentos em rádio e televisão e fazer publicidade institucional de atos, programas e obras. Também há restrições para convênios e transferências voluntárias de recursos a estados e municípios.
O Executivo ainda é obrigado a ajustar sites e outros meios de informação para excluir slogans, símbolos e imagens que permitam identificar autoridades ou administrações cujos cargos estejam em disputa nas eleições.
No início do defeso, segundo uma das fontes, o governo vai suspender, por exemplo, o programa Governo do Brasil na Rua, criado no fim de 2025 e que realiza eventos ao redor do país para dar atendimento à população e promover ações do governo e programas sociais. Até este mês, a iniciativa terá passado por 25 cidades.
Uma das fontes acrescentou que a AGU (Advocacia-Geral da União) adotou postura rigorosa em relação às restrições eleitorais e promoveu treinamentos de servidores para evitar punições, que podem atingir o candidato à Presidência e o CPF de agentes públicos.
O TSE (Tribunal Superior Eleitoral) é presidido neste ano pelo ministro do STF (Supremo Tribunal Federal) Kassio Nunes Marques. O comando da Corte eleitoral nas mãos do ministro, indicado pelo ex-presidente Jair Bolsonaro, tem levado o governo a adicionar uma camada a mais de cautela, segundo uma das fontes.
Impulso de medidas
A gestão de Lula vem tentando reagir a um cenário com pesquisas de opinião que apontam avaliações negativas do governo, não refletindo indicadores econômicos favoráveis, com uma atividade resiliente, desemprego em nível baixo e inflação relativamente moderada.
Após empates técnicos em levantamentos eleitorais de segundo turno com o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), Lula agora passou a ser apontado na liderança das intenções de voto, também em meio a revelações sobre envolvimento do parlamentar de direita com o fundador do Banco Master, Daniel Vorcaro, relação que o senador nega ser irregular.
O governo de Lula adotou neste ano, diante de restrições fiscais, uma série de medidas na área de crédito, com uso limitado de recursos orçamentários, gerando efeito multiplicador por meio dos financiamentos.
Até o momento, foram viabilizados R$ 21 bilhões para financiamentos subsidiados voltados à compra de caminhões e ônibus e R$ 30 bilhões de crédito para taxistas e motoristas de aplicativo. Também foram ampliadas linhas para a indústria e para empresas afetadas por efeitos da guerra no Irã e tarifas dos Estados Unidos.
O Novo Desenrola, por sua vez, que atende famílias com dívidas bancárias e estudantis e também empresas, já renegociou mais de R$ 20 bilhões em débitos.
O conjunto de medidas deste ano incluiu ainda a extinção da chamada taxa das blusinhas, que incidia sobre bens de pequeno valor comprados em plataformas internacionais — plano que contou com a oposição da equipe econômica — e um reforço em recursos do programa Minha Casa Minha Vida por meio de aporte do Fundo Social.
O governo também anunciou uma série de cortes tributários e subvenções sobre combustíveis, mas tem argumentado que, nesses casos, as ações são emergenciais e ficarão circunscritas ao período de duração da guerra no Irã.
As medidas geram liberação de renda das famílias ou incentivo direto ao consumo e são monitoradas por agentes de mercado, já que uma alta na demanda poderia dificultar o trabalho do Banco Central de controlar a inflação. Economistas têm apostado em um ciclo de corte cada vez menor nos juros básicos sob efeito de um cenário incerto e pressões nos preços.
O BC vem promovendo uma modesta e gradual calibração da Selic, hoje em 14,50% ao ano, e mencionou em suas comunicações o aumento do crédito direcionado pelo governo entre os fatores que podem atuar contra a política monetária.