O presidente da Associação Nacional dos Auditores Fiscais da Receita Federal do Brasil (Unafisco), Kléber Cabral, foi intimado nesta quinta-feira, 19, pela Polícia Federal (PF) para prestar esclarecimentos em procedimento que corre sob sigilo. A tomada de depoimento foi determinada pelo Supremo Tribunal Federal (STF)
Com Estadão Conteúdo
A intimação ocorre após as declarações dele à imprensa sobre as medidas adotadas pelo ministro do STF Alexandre de Moraes contra auditores da Receita suspeitos de vazamento de dados fiscais de parentes de integrantes da Corte. Segundo apurou a reportagem, o depoimento do chefe da Unafisco ocorrerá nesta sexta-feira, 20.
Mais cedo, em entrevista à Estadão/Broadcast, Cabral afirmou que o STF usa a Receita para mudar o foco do debate público da crise do Banco Master e de Daniel Vorcaro.
Ele criticou as medidas cautelares e a busca e apreensão contra quatro servidores do Fisco por terem supostamente acessado e vazado informações ligadas aos ministros do Supremo e seus familiares. Cabral alegou que o pedido foi muito amplo, constituindo uma “pesca probatória”.
“Não estou fazendo juízo de valor da crise institucional que o Supremo passa, mas usar a Receita e os auditores, instrumentalizar esses servidores pra tentar mudar o foco do debate público, isso não é razoável. E, como eu disse, as medidas cautelares foram completamente desarrazoadas”, afirmou. Para ele, a decisão do ministro Alexandre de Moraes, que determinou as medidas contra os auditores da Receita, foge da razoabilidade.
“A nossa avaliação é que foi uma operação, uma decisão tomada ali pelo ministro Alexandre, que fugiu totalmente da proporcionalidade, da razoabilidade, e decidiu ali por medidas cautelares gravosas, que já levam à privação de liberdade”, disse.
E completou: “Colocaram um regime de prisão semiaberto, que a pessoa tem que voltar para casa no final do dia, não pode se ausentar no final de semana. E isso sem nenhum processo prévio em que no curso o réu tenha tentado fugir e aí colocaram uma tornozeleira eletrônica”.
O comunicado assinado pelo ministro Moraes afirma que os alvos da operação foram quatro servidores da Receita que estão cedidos a outros órgãos. São eles: Luiz Antônio Martins Nunes, Luciano Pery Santos Nascimento, Ruth Machado dos Santos e Ricardo Mansano de Moraes. A reportagem não conseguiu contato com a defesa dos quatro acusados.
Horas depois da deflagração da ação, na terça-feira, 17, a Receita informou que havia detectado violação de informações de autoridades protegidas por sigilo no curso da investigação. A Receita, no entanto, não especificou se os dados vazados pertenciam a ministros do Supremo e seus parentes.
O Estadão apurou que a esposa de Moraes e o filho de um ministro da Corte seriam alvos do vazamento, bem como a enteada do ministro Gilmar Mendes.
Em nota, o Fisco informou que a auditoria sobre acesso ilegal a dados fiscais “envolve dezenas de sistemas e contribuintes”.
Após a manifestação da Receita, foi a vez de o STF se pronunciar também por meio de nota, afirmando que a investigação sobre vazamento de dados fiscais de ministros e seus parentes identificou “diversos e múltiplos acessos ilícitos ao sistema da Secretaria da Receita Federal do Brasil, seguindo-se de posterior vazamento das informações sigilosas”.
Na terça, 17, a Unafisco também divulgou nota afirmando que as investigações ainda são “preliminares” pela própria Receita Federal e, por isso, é preciso respeitar o devido processo legal e da presunção da inocência.
“Os Auditores-Fiscais da Receita Federal não podem, mais uma vez, ser transformados em bodes expiatórios em meio a crises institucionais ou disputas que não lhes dizem respeito”, dizia a nota.
Após três décadas de pesquisa silenciosa, cientista brasileira avança na regeneração de lesões medulares e reacende a esperança de milhares de famílias
Por Jéssica Batista
Durante muito tempo, a ciência afirmou que certas lesões eram definitivas. No entanto, a trajetória da bióloga Tatiana Coelho de Sampaio começa a desafiar esse consenso. Aos 59 anos, a pesquisadora lidera um estudo inovador que investiga o potencial regenerativo da laminina, proteína produzida naturalmente pelo corpo humano, capaz de abrir novos caminhos para a recuperação de lesões medulares.
Tatiana Coelho de Sampaio e a descoberta que pode mudar a medicina
A informação central desta história está na chamada polilaminina, uma versão derivada da laminina. Essa substância atua como um verdadeiro “andaime biológico”, oferecendo suporte para que os axônios — estruturas responsáveis por transmitir impulsos nervosos — consigam se reconstruir após uma lesão. Em outras palavras, a técnica cria um ambiente favorável para que o sistema nervoso volte a se organizar.
A pesquisa acontece na Universidade Federal do Rio de Janeiro e utiliza material de placentas humanas. Quando aplicada por injeção diretamente na área lesionada da medula espinhal, a polilaminina funciona como uma espécie de cola biológica. Assim, as células encontram um caminho para restabelecer conexões interrompidas por acidentes ou episódios de violência.
Além disso, resultados iniciais chamam atenção. Pelo menos 16 pacientes conseguiram autorização judicial para o uso experimental da substância. Desse grupo, cinco já apresentaram retorno parcial dos movimentos, o que reforça o potencial da laminina na regeneração neural.
Laminina: como a proteína atua na regeneração neural
A laminina participa desde cedo da formação do organismo. Ela está presente no desenvolvimento do embrião e exerce papel fundamental na organização dos tecidos e no crescimento celular. Por isso, pesquisadores acreditam que sua versão potencializada pode “reensinar” o corpo a se regenerar.
No início deste ano, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária autorizou o início da fase 1 dos estudos clínicos. Essa etapa avalia principalmente a segurança da substância. Depois disso, outras duas fases ainda serão necessárias para comprovar eficácia e viabilizar o tratamento em larga escala. Ou seja, o caminho é longo, mas os primeiros sinais são animadores.
Uma cientista que entra para a história
Caso os resultados se confirmem, Tatiana Coelho de Sampaio pode se juntar a nomes históricos como Oswaldo Cruz, Carlos Chagas e César Lattes, que colocaram o Brasil no mapa da ciência mundial. Além disso, o feito representaria uma virada definitiva na forma como a medicina enxerga as lesões medulares.
Enquanto isso, Tatiana segue com discrição e dedicação. Mãe de três filhos, ela ampliou sua maternidade simbólica ao acolher pacientes que, até pouco tempo atrás, conviviam apenas com diagnósticos irreversíveis.
Resumo: A bióloga Tatiana Coelho de Sampaio lidera uma pesquisa inédita sobre a laminina e seu papel na regeneração de lesões medulares. A substância cria um ambiente favorável para reconstrução dos circuitos nervosos. Resultados iniciais já indicam recuperação parcial de movimentos em pacientes. O avanço pode mudar o futuro da medicina e da reabilitação.
Internautas e parlamentares ligaram resultado da agremiação no Carnaval do Rio ao desempenho do governo federal
Com Conexão Política
O rebaixamento da Acadêmicos de Niterói, que realizou um desfile em homenagem ao presidente Lula, gerou reações nas redes sociais por parte de figuras do campo político da direita. A escola de samba ocupou a última posição, com 264,6 pontos, e caiu do Grupo Especial para a Série Ouro no Carnaval do Rio de Janeiro.
O ex-deputado federal Deltan Dallagnol declarou que o “Brasil de bem” estaria celebrando esse resultado. Em sua conta no X, ele afirmou: “Justiça seja feita: o Lula tem um talento natural para o rebaixamento. Não satisfeito em rebaixar o país, agora levou a escola de samba junto”.
Reações políticas ao resultado do Carnaval
O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) atribuiu o resultado à maneira como a escola tratou a instituição familiar por meio da ala “famílias em conserva”. Ele comentou: “Lula é sempre uma ideia ruim, seja para governar o País, seja para um samba enredo. Nunca nos esqueçamos: família é algo sagrado”.
O governador de Minas Gerais, Romeu Zema (Novo), comentou que o rebaixamento representa apenas “a primeira derrota” do PT neste ano, afirmando: “A primeira derrota do PT em 2026 já veio, e a gente fica muito triste com uma notícia dessas…”.
Para o deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG), o rebaixamento da escola é reflexo da forma como o PT afunda o país. “Isto sim foi uma homenagem muito bem adequada”, destacou o parlamentar.
Outro deputado federal, Sóstenes Cavalcante, também atribuiu o rebaixamento ao presidente Lula. “Prometeu tudo, não entregou nada. Lula rebaixado!”, afirmou em sua conta no X.
A deputada Júlia Zanatta (PL-SC) considerou o rebaixamento como um sinal do início da queda do presidente e de seu partido, afirmando: “Agora só falta REBAIXARMOS O LULA e o PT!”.
Parlamentar venceu a ex-presidente do Congresso María del Carmen Alva
Por João Nakamura
O parlamentar José María Balcázar Zelada, do partido Perú Libre, foi eleito presidente do Congresso do Peru na noite desta quarta-feira (18). Ele superou a ex-presidente do Congresso María del Carmen Alva, do Ação Popular.
Balcázar também assumirá o cargo de presidente interino do país andino, após a deposição de José Jerí, que ficou quatro meses no cargo.
Na terça-feira (17), o Congresso peruano destituiu Jerí, após um escândalo envolvendo encontros não divulgados com um empresário chinês e acusações de tráfico de influência. O então presidente foi removido do cargo por maioria simples em uma moção de censura. Foram 75 votos a favor, 24 contrários e três abstenções.
Fernando Rospigliosi, último presidente do Congresso, era o próximo na linha de sucessão, mas abriu mão do cargo, o que abriu caminho para uma disputa.
Ao assumir a Casa de Pizarro, Balcázar se torna o oitavo presidente do país andino em oito anos. O parlamentar obteve 60 votos, contra 46 de Maricarmen Alva.
Nascido em Nanchoc, na região norte de Cajamarca, José María Balcázar Zelada, de 83 anos, foi eleito ao Congresso pela região de Lambayeque em 2021.
Formado advogado pela Universidad Nacional Pedro Ruíz Gallo e doutor em direito e ciência política, trabalhou por décadas como professor universitário e atuou como juiz na Suprema Corte de Lambayeque, ocupando posteriormente um cargo temporário na Suprema Corte do Peru.
Balcazar ocupou cargos influentes no parlamento, como a liderança da comissão especial responsável pela seleção de magistrados para o Tribunal Constitucional e a atuação em cargos de destaque em comissões relacionadas à justiça e à educação.
O Peru tem eleições gerais marcadas para o dia 12 de abril. Balcázar ficará na presidência interinamente até a posse no dia 28 de julho.
Saldo representa 10% dos trabalhos a respeito da doença mantidos no PubMed, que reúne uma grande quantidade de literatura biomédica
Por Samuel Fernandes
Um total de 261 mil textos científicos sobre câncer que saíram entre 1999 e 2024 contém características similares a publicações produzidas por fábricas de artigos, de acordo com um novo estudo.
Ou seja, podem ter sido feitos de forma fraudulenta. O saldo representa 10% dos trabalhos a respeito da doença mantidos no PubMed, que reúne uma grande quantidade de literatura biomédica.
Publicada no periódico BMJ (British Medical Journal) no fim de janeiro deste ano, a nova pesquisa partiu da percepção de que essas fábricas estão expandindo sua atuação. Nos últimos 20 anos, ao menos 400 mil artigos teriam saído dessas fábricas.
“Existe um forte incentivo para a compra de artigos científicos, principalmente na China, onde muitos médicos são obrigados a fazer pesquisas e publicar seus achados, mas eles já trabalham muitas horas. Então, existe um mercado, e as pessoas usam esse serviço”, afirma Adrian Barnett, professor da Escola de Saúde Pública e Serviço Social da Universidade de Tecnologia de Queensland, na Austrália, e um dos autores do novo artigo.
Barnett e seus colegas treinaram um modelo de inteligência artificial para detectar quais pesquisas sobre câncer aparentam ter origem nessas fábricas. Uma das razões do enfoque em câncer é que essa é uma das áreas em que as publicações fraudulentas já estão disseminadas. Outras áreas em que o problema se repete são computação e ciências do esporte, segundo o professsor.
O treinamento da máquina se baseou em 4.404 artigos. A metade deles eram textos retratados ou seja, publicações invalidadas por causa de erros ou fraudes e relacionados a fábricas de artigos. A outra metade reunia artigos legítimos. As publicações também foram utilizadas para medir a acurácia do modelo, que atingiu 91% para sinalizar se um manuscrito tinha características comuns a artigos fraudulentos.
Com o modelo consolidado, os pesquisadores o aplicaram a 2,6 milhões de artigos sobre câncer listados no PubMed. O modelo apontou que em 261.245 deles havia características parecidas com as de artigos retratados.
A China concentrou a maior fatia de textos com essas características, com base na afiliação do primeiro autor: 36% em relação ao total de textos atribuídos ao país. Em seguida, ficaram Irã (20%) e Arábia Saudita (16%). O Brasil apareceu com 4%.
Barnett diz que ficou chocado com a conclusão. O docente afirma que, ao analisar alguns dos manuscritos apontados pelo modelo como similares a artigos retratados, era nítido que se tratava de publicações fraudulentas. Há chances ainda de existirem artigos que foram desenvolvidos de forma mais sofisticada e, com isso, driblaram o modelo usado no novo estudo.
Essa hipótese é ainda mais factível porque fábricas de manuscritos fraudulentos estão melhorando sua produção e, mais recentemente, buscam publicar esses artigos em revistas científicas de alto impacto.
“Muitas pessoas simplesmente descartavam o problema de publicações vindas de fábricas de artigos e diziam: ‘Esses artigos só aparecem em periódicos predatórios ou em revistas de baixa qualidade que eu não leio. Mas não achamos mais que isso seja verdade. Acreditamos que eles estão sendo publicados em revistas bastante respeitáveis e que as pessoas podem acabar lendo por acaso e pensar que se trata de pesquisa séria”, afirma Barnett.
Solução para o problema
Iniciativas para detectar possíveis artigos fraudulentos, como o modelo adotado no novo estudo, ajudam a combater essas publicações. A solução também depende de ações das editoras científicas.
“Há um número enorme de editoras. Milhares. Algumas delas não estão fazendo nada. Outras estão tentando, mas é difícil. Um dos problemas é que a quantidade de artigos científicos está aumentando drasticamente. Então, há mais trabalho para todos: para as editoras, para suas equipes, para os revisores”, diz Barnett.
Os próprios pesquisadores também podem mudar suas práticas. Um exemplo é se comprometer a não contratar o serviço de fábricas de artigos.
Além disso, uma possível ação para solucionar o problema é observar a circunstância que propiciou o surgimento de empresas que vendem manuscritos científicos. Para Barnett, esse cenário está relacionado com a pressão de publicar constantemente artigos científicos, ou seja, diminuí-la poderia reduzir a procura por fábricas de artigos.